quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O sonho da casa propria

Léo e eu adoramos o nosso cantinho porque, apesar de pequeno, é a nossa cara. Cuidamos com carinho de cada ambiente garimpando durante as nossas viagens peças que dão mais personalidade aos moveis Ikea na nossa sala. Mas um dos principais motivos de gostarmos tanto de morar neste apê é saber que, se der vontade, basta embalar tudo e devolver as chaves.


A unica vez que cogitamos parar de viajar para investir em um apartamento foi logo depois que nos casamos. Nessa época eu descobri que comprar a casa de um velhinho e ficar torcendo para ele morrer rapido era a opção mais em conta para casais que, como nos, não possuem economias para investir na casa propria. 
 
Eh a tal venda en viager, onde os proprietarios (geralmente idosos viuvos e sem filhos ou familia) vendem seus imovéis por preços bem abaixo do valor de mercado. Bem abaixo mesmo! Um apartamento avaliado em 580 mil euros, por exemplo, sai por 236 mil euros de entrada + mensalidades de 500€ se for comprado en viager. Ou seja, você compra, mas não leva - não imediatamente. E é ai que entra a parte chata da historia: ficar torcendo para o proprietario bater as botas para, finalmente, poder se instalar no seu doce lar.

Antes que você pense: "Credo! De onde foi que os franceses tiraram essa ideia?", eu explico que francês é pratico. Criaram o viager porque, acredite ou não, tinha gente morrendo por aqui e deixando imovéis carissimos pro governo - simplesmente por não terem herdeiros. Dai surgiu essa proposta, que permite que familias invistam nas suas casas proprias, mas que, ao mesmo tempo, garante uma vida mais confortavel para os aposentados. Ambos se beneficiam porque o aposentado, além de levar a bolada da entrada e receber uma quantia todos os meses, tem garantido o direito de continuar no imovel até morrer. E o comprador, bom, o comprador pode economizar até 50%.

Outro dia assisti a uma reportagem sobre um senhor de 80 e poucos anos que vivia sozinho por não ter se casado nem tido filhos, e que recebia uma aposentadoria de 400€ por mês (muito baixa, visto que o salario minimo na França é de 1.430€). Um caçador de imoveis descobriu o cara e, ao visitar a casa dele, a avaliou em 800 mil euros! Propôs então que ele a vendesse pela metade do preço, cobrando uma entrada de 200 mil e o resto em prestações de dois mil euros por mês. Sua renda mensal passou de 400€ para 2.400€! Sem falar no dinheiro da entrada, que ele decidiu gastar viajando. Ja o comprador... bom, este deve fazer mandinga todo mês.

O viager é, acima de tudo, um enorme risco para quem compra. Afinal, você não sabe quantos anos o proprietario ainda vai viver. Tem um caso famoso aqui na França que faz a gente pensar duas vezes antes de investir num negocio desses. Jeanne Calment, uma viuva de 90 anos e mãe de dois filhos ja falecidos, vendeu a sua casa para um casal (o homem tinha 47 anos na época) e recebia todos os meses uma boa quantia. Trinta anos depois, quando o comprador faleceu aos 77 anos, a danada continuava viva e esbanjando saude. A esposa do comprador teve que continuar pagando as mensalidades até que Jeanne falecesse, aos 122 anos de idade! No final, a casa custou duas vezes o valor negociado.

Azarada que sou, sei que também vou me dar mal se fizer este tipo de investimento, mas me divirto olhando os anuncios de viager no jornal. Além da descrição tradicional, tem também a idade dos proprietarios: "2 quartos em Paris, 60m2, vista para a Torre, homem de 78 anos". So falta o historico médico, facil de descobrir visitando o apartamento e batendo um papo com o dono. Para mostrar que o apartamento é um otimo negocio, os proprietarios contam com que frequência vão ao hospital e os problemas de saude que andam tendo... como se dissessem: ja tive dois infartes nos ultimos anos e o meu colesterol esta explodindo, amigo! Pode assinar o contrato que você vai se dar bem!

Você assinaria?

 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Um roteiro de cinema em Lyon

Eu moro num bairro meio afastado do centro, o que não é de todo mau. Tem comércio, bons restaurantes, metrô. Às quartas, tem uma feira orgânica e, aos sabados, a tradicional - com barracas de cacarecos e livros que eu adoro garimpar.

Mas até pouco tempo eu pensava que, turisticamente falando, o 8ème não era um lugar interessante. Quando recebia visitas, corria para o centro da cidade. So que isso começou a mudar. Passei a dividir o meu tempo livre entre os bairros mais tradicionais e o meu. E foi nesse ajuste que finalmente eu pude visitar o museu-simbolo de Lyon, ao lado de casa.


Não gosto de classificar passeios como "obrigatorio" ou "imperdivel", mas me permito a escorregada para dizer que estes adjetivos se aplicam perfeitamente ao Museu Lumière, principalmente para os cinéfilos que sonham visitar o local onde foram rodadas as primeiras cenas da historia do cinema e conhecer a casa e a vida dos irmãos franceses que inventaram a sétima arte.

Se identificou? Então este é um programa para fazer assim que você colocar os pés na cidade - antes mesmo de seguir este roteiro aqui


O passeio ja começa ao descer na estação de metrô Monplaisir Lumière, toda decorada em homenagem aos irmãos Lumière. A casa que abriga o museu, construida em 1899 para ser a residência da familia, é apenas uma das boas surpresas do passeio. Fiquei encantada com o estilo art nouveau e art déco da casa, que mais parece um pequeno castelo.


Museus de cinema existem no mundo todo, mas nenhum outro, além do de Lyon, exibe itens tão importantes como o primeiro cinematografo da historia - um aparelho capaz de projetar sequências de imagens dando a impressão de movimento, inventado por Louis Lumière. Mas não é so isso. O museu também possui em sua coleção outras grandes invenções dos irmãos franceses, como o autocromo, a primeira técnica industrial de fotos coloridas, muito usada nas fotos da Primeira Guerra Mundial.


Em duas horas é possivel visitar as diversas salas interativas do museu e também as salas de exibição onde podemos assistir a alguns dos filmes mais antigos do cinema. Além disso, o museu/cinemateca possui um jardim lindo que vive cheio no verão, onde estão dispostos painéis que contam um pouco das invenções malucas dos irmãos Lumière.

Mas o lugar mais importante para os amantes do cinema talvez seja o antigo galpão da fabrica da familia Lumière, que fica atras do jardim. Foi exatamente ali, na rue du premier-film, a rua do Primeiro Filme, que foram rodadas as primeiras cenas do cinema, num filme dirigido por Louis Lumière ("A saida dos operarios da fabrica", em português), utilizando o cinematografo. O que resta do cenario original são as vigas de madeira que ficavam no teto da fabrica. No lugar da antiga fabrica, existe hoje uma sala de cinema que exibe durante o ano todo filmes franceses e estrangeiros que entraram para a historia.


Mas o passeio não termina aqui. Para continuar no universo dos irmãos inventores do cinema, sugiro uma pequena caminhada até a Avenida des Frères Lumière para conhecer o mais novo restaurante do Paul Bocuse, o Marguerite. O chef de cuisine francês mais famoso e respeitado do mundo escolheu a chef brasileira Tabata Bonardi para ser a responsavel pela cozinha do seu novo empreendimento.


A casa onde Auguste Lumière viveu com sua esposa Marguerite foi toda renovada para abrigar o restaurante, mas conservou o seu estilo art nouveau (dizem que investiram 3 milhões de euros na reforma). A proposta é revisitar pratos tradicionais franceses; o resultado é uma comida saborosa em um ambiente refinado, mas não a ponto de causar desconforto. Foi por ter comido muito bem la, mas também por ter me sentido tão à vontade, que este se tornou um dos meus restaurantes preferidos em Lyon.

No almoço, um menu com entrada + prato + sobremesa custa 28,60€. No jantar, o menu Lumière sai por 42€. Consulte os menus aqui e lembre-se de reservar antes. 


O meu bairro guarda ainda uma ultima surpresa, que vai fazer você me agradecer por ter te convencido a deixar o eixo turistico do centro da cidade para descobrir pequenas delicias do cotidiano lionês.

Depois de visitar o museu, se não conseguir uma reserva no Marguerite, siga caminhando pela Avenida des Frères Lumière por dois quarteirões, até o numero 174. Não resista ao convite da vitrine discreta e apetitosa do artisan chocolatier François Gimenez. Entre e escolha alguns chocolates para levar ou uma das sobremesas, caso consiga escolher apenas uma. O lugar conta com os talentos do Joffrey Lafontaine, membro da equipe vencedora da Copa do Mundo de Patissêrie em 2013.


Dez minutos de metrô te separam do museu mais importante da cidade, do restaurante mais badalado do momento e dos melhores doces de Lyon. E eu achando que meu bairro era sem graça...




Museu Lumière
Metrô: linda D, estação Monplaisir Lumière
De terça a domingo, das 10 às 18h30
Tarifa: 6,50€

Restaurante Marguerite
57, avenue des Frères Lumière
Aberto todos os dias, das 12 às 14h e das 19 às 22h30
Telefone: 04 37 900 300

François Gimenez
174, avenue des Frères Lumière
Aberto de terça a sabado, das 8 às 19h15 e aos domingos, de 8 às 12h.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

9 coisas para NÃO fazer em Lyon

O que não falta neste blog são dicas de Lyon. Ja escrevi sobre os meus cafés preferidos, sobre museus, expliquei como funcionam as bicicletas publicas e montei um roteiro com nossos cantinhos preferidos sem deixar de fora os principais pontos turisticos da cidade. Uma pesquisa rapida e você sabera o que fazer em Lyon. Mas nenhuma to-do list garante uma viagem redonda. Para evitar dor de cabeça é preciso estar alerta. Saiba, portanto, o que NÃO fazer em Lyon:

1. Não passe apenas um dia na cidade:

Lyon fica a 2 horas de trem de Paris, o que faz qualquer um cair na tentação do "vou bem cedinho e volto no ultimo TGV". Não, caro turista, você não quer fazer isto. Além de muito cansado, você partira com a sensação de ter deixado de conhecer os segredos da cidade. Pelo menos dois dias inteiros é o que eu recomendo para quem vem pela primeira vez.


2. Não se hospede fora do centro: 


Lyon é enorme e, ao mesmo tempo, um ovo. A parte turistica da cidade se resume à Presqu'île e à Velha Lyon. Se hospedar fora dali é ter que pegar transporte e se privar de dar aquela passadinha no hotel depois do almoço. Uma economia que não vale a pena.


3. Não visite a Fête des Lumières no sabado:


Muita gente coloca Lyon no roteiro por causa da Festa das Luzes, a mais importante da cidade e uma das mais bonitas da França. São 4 dias de festa, sempre em torno do dia 8 de dezembro. Evite vir no sabado. Das 3 milhões de pessoas que visitam Lyon durante a festa, pelo menos 1/3 vem no sabado. Caminhar de uma instalação à outra vira um desafio e a noite, que deveria ser de diversão, acaba se tornando um pesadelo! O ultimo dia da festa costuma ser o mais tranquilo.


4. Não economize em restaurantes:


Ir a Paris e não subir na Torre Eiffel - é isso o que você estara fazendo se vier a Lyon e deixar de comer em um bom restaurante. Lyon é a capital mundial da gastronomia, com 14 restaurantes estrelados no Guia Michelin. O unico com 3 estrelas continua sendo o papa da gastronomia, Paul Bocuse. A partir de 150€ é possivel degustar um dos menus do melhor cozinheiro do mundo.

Por bem menos, a partir de 25€, você pode apreciar a cozinha do Christophe Hubert, um jovem chef que ja conseguiu uma estrela para o seu bistronomique L'Effervescence (15, Rue Claudia - +33 4 78 37 23 89). Se a grana for curta, prefira fazer uma refeição mais cara e tomar um lanche na outra ao invés de fazer 2 refeições "mais ou menos".  Lembre-se de reservar com antecedência. A lista de todos os estrelados esta aqui.


5. Não faça compras na Part Dieu:


Francês gosta de fazer compras nas ruas. Dez graus negativos não impedem que eles continuem desfilando seus lindos casacos e botas pelo centro da cidade, olhando as vitrines. Eu, quentinha dentro do carro, não penso outra coisa além de "são todos malucos!". Mas basta chegar na Part Dieu, um centro comercial que eu insisto em chamar de shopping, para entender porque eles fogem dali. Um lugar feio, sujo, com poucas lojas (se comparado aos shoppings do Brasil). Eh quentinho? Sim. Coberto? Também. Vale a pena? De maneira alguma!
 
Para fazer suas compras em Lyon, faça como os lioneses: dirija-se à Rue de la République (onde estão H&M, Zara, Mango), à Rue Edouard Herriot (para encontrar lojas como Dior, Cartier, Louis Vuitton...) ou ao bairro da Croix Rousse para levar presentes originais.


6. Não tome bordeaux:


Deixe este sacrilégio para quando estiver em Paris, que não produz nenhum vinho importante. Em Lyon, aproveite para degustar um dos vinhos da região. Peça um côtes-du-rhône ou um beaujolais, que injustamente leva a fama de ser um vinho ruim por causa do beaujolais nouveau (vinho jovem). Os beaujolais crus são os melhores.


7. Não ande de ônibus Hop-on, hop-off:


Na minha opinião, estes ônibus que fazem tours parando nos principais pontos turisticos são uma boa opção em duas situações apenas: quando a cidade é grande (Roma ou Paris, por exemplo) e o turista não tem muito tempo para ver tudo; ou quando ha dificuldade de locomoção. Como eu disse acima, a parte turistica de Lyon não é muito grande, então, se você não tem problemas para caminhar, dispense o ônibus. O que Lyon tem de mais interessante fica no meio do caminho.


8. Não faça refeições na Rue Mercière:


Não se deixe ganhar pelo charme do lugar. Apesar de ser uma das ruas mais antigas de Lyon e de ter a seu favor uma oferta variada de restaurantes, ela é, gastronomicamente falando, o lugar mais turistico da Presqu'île. Isso quer dizer que eu vou comer mal, Mirelle? Não obrigatoriamente, mas também não garante que você va comer bem - e comer "mais ou menos" na capital mundial da gastronomia é um baita desperdicio!

Depois de ter experimentado quase todos os restaurantes dali e, principalmente, de conhecer dezenas de outros longe de la, os unicos que eu indico na Mercière são o Bleu de Toi (51, Rue Mercière) para moules frites e o L'Epicerie (2, Rue de la Monnaie) para tartines. Dois dos meu endereços preferidos para refeições baratas em Lyon.


9. Não deixe para almoçar/jantar tarde:


"Lyon é uma cidade grande com ares de interior". Bem assim, com voz apaixonada, é que apresento a minha cidade quando algum amigo vem nos visitar. Mas quando me empolgo com os passeios e perco a hora de seguir para um restaurante, desejo que Lyon seja mais flexivel com seus horarios, como acontece nas grandes capitais. Logo me lembro do caos destes lugares e volto a amar Lyon justamente pelo lado provinciano que ela conserva. O jeito é se adaptar: almoços são servidos até umas 14h e jantar depois das 22h30 é quase impossivel. O que sobra são os restaurantes turisticos da Mercière e da Velha Lyon, aqueles que você deve evitar.


No mais, aproveite bem a cidade! Eu poderia dizer que Lyon merece a sua visita, mas acredito que você é quem merece conhecê-la. :)


domingo, 5 de janeiro de 2014

Retrospectiva 2013

Cof cof, quanta poeira por aqui! Tanto tempo sem escrever, que os meus dedos enferrujaram.

Comecei este texto de diversas maneiras, sempre mal escritas, mas relaxei quando me dei conta de que não devo ter mais leitores a essa altura do campeonato. No maior estilo "meu querido diario" que este blog tinha quando foi criado, escrevo o primeiro post do ano para manter a tradição da retrospectiva fotografica que fiz em 2010, 2011 e 2012. O tempo passa, mas o foco continua o mesmo: viver pelo menos um momento importante em cada mês do ano.


Janeiro: O fim de semana na Suiça foi, além de romântico, a prova de que não existe viagem redonda quando se viaja com o meu marido. Com muito bom humor soubemos contornar situações que poderiam ter estragado o nosso passeio.
 



Fevereiro: Nosso reencontro (13 anos depois) foi em Paris, assim como o nosso casamento. Por isso temos pela capital francesa um carinho especial e fazemos questão de visita-la todos os anos. Desta vez, escolhemos o mês dos namorados aqui na França para seguir com a tradição.


Março: Para um expatriado, receber visitas costuma ser tão emocionante quanto o primeiro *insira aqui a sua comida preferida - eu escolho pão de queijo* que comemos ao desembarcar no Brasil. Dai, a minha alegria ao reencontrar o Nestor, que conheci anos atras graças ao blog e que, além de artista talentoso, é também um dos amigos mais queridos que Léo e eu temos hoje. (Clica no nome do rapaz para descobrir o trabalho incrivel dele. Você vai adorar!)


Abril: Voltar aos bancos de uma universidade depois dos 30 não é facil. Foram 2 anos conciliando esposa carente e monografia interminavel trabalho e estudos antes de ter nas mãos um diploma de MBA. A formatura do meu marido foi, de longe, o maior alivio orgulho que tive em 2013.


Maio: Pé na estrada rumo ao sul da França para descobrir as impressionantes calanques de Cassis. E ainda fiz um post completo com o caminho das pedras para quem quiser se aventurar.


Junho: Manifestações no Brasil. O orgulho transbordava em mim de tal maneira que decidi organizar a de Lyon. Mas junho também foi mês de festa por aqui, pelo aniversario tematico do marido. O presente? Iron Maiden em Paris.


Julho: Uma das minhas resoluções para 2013 era viajar mais pela França, e visitar os campos de lavanda da Provence estava no topo da minha lista. De brinde, ainda conheci Gorges du Verdon, o canyon mais bonito da Europa e presença garantida nas listas das paisagens mais bonitas da França.


Agosto: - Amor, o que você quer de aniversario? 
         - Felicidade.
         - De que tipo?
         - Do tipo que põe carne dentro e frita.

E então ele me levou para comer pastel em Lisboa (antes, ainda visitamos Madri).




Setembro: Quatro anos esperando para receber meu irmão amado e minha cunhada linda em Lyon. Além do tour pela cidade, os levamos para descer remando o rio Ardèche até passar sob o Pont d'Arc.


Outubro: Desde 2009, quando cheguei na França, fui 2x por ano ao Brasil. Em 2013 fiz uma detox forçada e consegui sobreviver sem ter ido uma unica vez. Mas so consegui porque recebi mais visitas que de costume e cada uma delas fazia eu me sentir la (embora tivesse sempre algum chato falando francês do meu lado para me lembrar que, na verdade, eu estava aqui). Em outubro foi a Hismênia quem veio aquecer meu coração. Batemos pernas juntas em Lyon, Pérouges, Genebra e Paris.


Novembro: Eu disse que 2013 foi o ano de viajar mais pela França. Também falei que foi o ano de estar mais perto dos amigos. Foi a junção dessas duas coisas que fizeram com que a visita ao Palacio Ideal do Carteiro Cheval (lugar maluco, vou fazer post!) fosse o momento mais especial de novembro.


Dezembro: Outro mês de reencontros. Veio um amigo greco-alemão para a Fête des Lumières e fomos, Léo e eu, passar o natal em Londres com meu irmão e minha cunhada.




Minhas resoluções para 2014? Continuar listando pelo menos um fato incrivel de cada um dos meses do ano para, no balanço do réveillon, me certificar de que não fiquei sentada vendo a vida passar. :)



B o n n e   a n n é e !

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

C'est la rentrée!

Renovada! Eh assim que estou me sentindo nesta primeira segunda-feira do ano. Não, eu não perdi as folhas do meu calendario, o ano realmente acabou de começar aqui na França. Ja expliquei em outro post que o ano letivo francês começa em setembro, portanto, aquela sensação de inicio de um novo ciclo que temos nos primeiros dias de janeiro é sentida pelos franceses no começo de setembro. Por aqui, agendas e calendarios começam por setembro - uma maluquice que tem nome: la rentrée.

Faz uma semana que os jornais falam sobre o assunto, que tudo gira em torno dela. Eh a hora de retomar o trabalho, de entrar na academia, de se matricular em um curso de linguas, de preparar as crianças para uma nova etapa na escola. O ciclo se encerrou no final de junho e, depois de dois meses de férias, todo mundo se sente pronto para começar tudo de novo. 

Quando falei sobre este assunto pela primeira vez aqui no blog, contei que eu tinha dificuldades para me situar no tempo. Era dificil falar do semestre passado chamando-o de ano passado, mas, agora que ja me acostumei, posso dizer que estou louca para encerrar o ano sabatico que vivi no ultimo ano.

Eu precisava parar. Desde o final de 2009, quando larguei tudo para vir morar na França com o Léo, eu vinha emendando um curso no outro para ocupar o meu tempo até descobrir como recuperar a minha vida profissional. A primeira etapa era aprender o francês, ja que cheguei aqui sem saber falar bonjour. Um ano de estudos depois, voltei para a faculdade para fazer uma especialização em Ciências Politicas. Em 3 anos eu me casei, me tornei fluente em mais uma lingua, adquiri conhecimentos em uma nova area, fiz amigos do mundo todo, viajei por mais de 15 paises, amadureci. Por outro lado, a minha vida profissional ficou em stand by mais tempo do que deveria.

Este tempo de reflexão serviu para avaliar possibilidades, procurar respostas e encontrar caminhos que me permitirão ter de volta a realização profissional que eu sentia no Brasil sem ter que abrir mão da felicidade pessoal que eu so encontrei aqui na França. Uma compatibilidade nada evidente para alguém que ousa querer tudo.

Se no ultimo ano eu precisei de tranquilidade, é com o pé no acelerador que começo este novo ciclo, desejando que ele seja, além de muito desafiador, cheio de novidades. Novidades que, se tudo der certo (vai dar!), muito em breve devem começar a pipocar por aqui.



Bonne rentrée à tous!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Rota da Lavanda, Gorges du Verdon e outras atrações imperdíveis na Provence

Visitar os campos de lavanda da Provença foi o item da minha lista de resoluções para 2013 mais prazeroso de riscar. Embora eu tenha dito no post anterior que viajar pela Provence é gostoso mas definir o roteiro é tarefa ardua, o itinerario da nossa viagem de 3 dias pela região se desenhou naturalmente. A Natalia, do blog Destino Provence, ja tinha me dado a dica: o Plateau de Valensole é um dos melhores lugares para ver os maiores campos de lavanda. Joguei "Plateau de Valensole" no Google e precisei buscar o meu queixo no chão quando vi as imagens. 


O nosso destino final foi Gorges du Verdon, presença garantida em qualquer lista dos lugares mais bonitos da França. Para tornar o longo trajeto mais agradavel, juntei pedaços de 3 entre estes 6 circuitos de lavandas, escolhi alguns Beaux Villages como paradas estratégicas e convoquei dois amigos portugueses. Não tinha como dar errado.


A primeira preocupação de quem programa uma viagem para ver campos de lavanda na Provence é escolher a data certa. Em geral, da para vê-los cheios no inicio de julho, mas a época de floração varia de uma região para outra - sem falar no tempo, que pode atrasar ou adiantar em algumas semanas a plantação e a colheita. Este ano, por exemplo, o verão demorou para dar as caras e, consequentemente, eu fiquei mais mal humorada que de costume os campos também demoraram a ficar completamente roxos.


Foi quando paramos para almoçar em La Garde-Adhémar, um dos 156 vilarejos mais bonitos da França, que avistamos os primeiros campos. Era so o começo de um longo dia parando à beira da estrada para fotografar.


São tantos campos de lavanda, que a certa altura nos perguntamos se estavamos mesmo afim de parar mais uma vez para enfrentar as abelhas em busca de fotos. Sei que desprezar campos de lavanda soa esnobe, mas o Léo ser alérgico à picada de abelha me deixava seriamente dividida entre o bem estar do meu marido e as imagens que ilustram este post.


O segundo dia da viagem foi o mais intenso em se tratando de cenarios inesqueciveis. Não bastasse o flerte escandaloso entre lavandas e girassois em Valensole, encontrei aqui na França um lugar pra chamar de meu. Aquele que não da mais vontade de ir embora, sabe? Em uma comparação rasa, posso dizer que tenho com as cidades a mesma relação que tenho com as pessoas: às vezes o santo não bate, em outras me entrego de cara. Fui presa facil para Moustiers-Sainte-Marie.


O vilarejo de 700 habitantes conseguiu conservar o seu ar provinciano e acolhedor mesmo recebendo tantos turistas. As construções são tipicas da região, a cerâmica fina é o principal artesanato e a culinaria do terroir pode ser descoberta em um dos terrasses que ficam à beira do riacho que passa entre as duas ruelas principais.


Tudo ali é meio magico, principalmente a capela Notre Dame de Beauvoir, que ganhou o meu coração por ter sido construida, sabe-se la como, entre rochedos a 830m de altura. O esforço de subir os 262 degraus é recompensado pela vista mais bonita da cidade.


Moustiers-Sainte-Marie é a porta de entrada para Gorges du Verdon, um paraiso que os estrangeiros não visitam porque ficam tempo demais em Paris. Estamos falando do canyon mais bonito da Europa, com aguas claras e esverdeadas que podemos desbravar alugando pedalinhos ou caiaques à beira do lago Sainte-Croix.


Eu jurava que não me surpreenderia novamente depois do que tinha visto nos dois primeiros dias da viagem, mas foi so chegar em Sisteron para perceber que eu estava enganada. Esta cidade entrou no roteiro depois que assisti a um programa na tv francesa contando que aquela era uma das principais atrações da Rota de Napoleão, trajeto que ele percorreu em 1815, quando deixou a Ilha de Elba, na Italia, para reconquistar Paris.


Sisteron tem inumeros becos e passagens secretas, alguns da idade média. Era domingo e, enquanto percorriamos os labirintos da parte mais antiga do centrinho, os moradores curtiam a piscina publica construida aos pés da cidade medieval. Um piscinão de Ramos francês - gratuito e impressionante.
 

Vencidos pelo calor, também esticamos nossas toalhas por ali e aproveitamos o que deu, até a chuva atrapalhar. Fomos então até o ponto mais alto da cidade para visitar a Citadelle, um forte-castelo que protege Sisteron desde o século XIV e de onde temos esta vista incrivel.


Napoleão sabia que Sisteron, de prefeito e população monarquistas, seria o obstaculo mais dificil antes de chegar a Paris. De fato, a Citadelle estava preparada para impedir a volta de Napoleão, mas ele enviou 100 soldados para render a cidade e conseguiu passar. Sinta-se livre para especular nos comentarios o que seria da França se Napoleão não tivesse voltado. Ao que me diz respeito, eu fico bem feliz de viver em um pais que não tem mais reis e rainhas.


Eramos os unicos visitantes, ja que nenhum outro maluco teve a idéia de subir a 500 metros de altitude enquanto raios caiam a cada 2 minutos e a chuva não dava trégua. Vimos nisso a oportunidade para percorrer calabouços e salões à vontade, fazendo fotos idiotas e dando sustos uns nos outros.

Não da nem para falar que foram 3 dias de descanso porque não paramos um minuto, a Provence é uma região que nunca decepciona, ainda mais nessa época do ano. Lembre-se: a França não é so Paris. Para viajar como um autêntico francês, coloque no seu roteiro alguns Beaux Villages, durma em chambres d'hôtes, almoce plats du jour e rode pelas estradas departamentais.

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