segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Porque até a política merece respeito

Estou feliz que as eleições tenham acabado. Não estou feliz com o resultado, mas também não estaria se o outro canditado tivesse sido eleito, então, tanto faz. Minha felicidade é de alivio, por saber que agora o mundo volta a ser menos feroz e agressivo, principalmente o virtual. Ando assustada com as agressões que eleitores, de ambos os lados, andam publicando na internet. Atacar candidatos eu ainda entendo, mas ofender eleitores é o fim da picada. Como se você, por acreditar em caminhos que eu não acredito, fosse o heroi e eu, a vilã. Quem votou na Dilma, o fez porque pensa que ela governara melhor o Brasil, assim como quem votou no Serra pensa o mesmo sobre ele. Ninguém vota querendo errar.

"Na cultura politica brasileira, a esquerda encontra-se revestida de um valor politico e a direita, de uma conotação negativa. Os brasileiros, de modo geral, enchem a boca e estufam o peito ao se declararem de esquerda e reservam aos seus adversarios a injuriosa alcunha de 'direita', como se um representasse o bem e o outro, o mal. Nada mais estranho que esse comportamento no universo politico francês. Na cultura politica francesa, não ha qualquer maniqueismo nessa classificação, que é eminentemente utilitaria, servido apenas para identificar e agrupar as forças politicas conforme as suas afinidades e rivalidades." ¹ Essa historia de direita/esquerda surgiu durante a Revolução Francesa, identificando a distribuição espacial na Assembléia Nacional durante os debates em torno da constituição do pais. Os revolucionarios mais radicais, que eram contra o direito de veto do rei, sentavam-se à esquerda do plenario, enquanto as forças realistas, favoraveis ao veto, agrupavam-se à direita da assembléia. Nada além.

Os franceses são absurdamente mais interessados em politica que os brasileiros. Não faz o menor sentido dizer a eles que politica é um daqueles assuntos que não se discute. Eles debatem e falam sobre ela quase que diariamente, e cada um é muito orgulhoso da posição politica que tem. O cara que é de esquerda sabera expor de maneira clara os argumentos que defende, assim como o de direita, se for da vontade deles. Isso não quer dizer que os franceses gritam aos quatro cantos a que grupo politico pertencem, afinal, eles são bem reservados. Mas entre amigos e familiares é normal que se conheça a posição de cada um. O mais bonito é que todos se respeitam.

Acredito que boa parte da alienação dos brasileiros em relação à politica se deva à falta de acesso à informação bruta, direto da fonte, sem influência da midia - que no Brasil é totalmente tendenciosa. Para escutar o que um politico brasileiro tem a dizer, ou assistimos ao canal do Senado ou nos contentamos com o que a imprensa nos conta. Os canais abertos não dão espaço para programas e debates politicos porque o publico não se interessa pelo assunto. O publico não se interessa porque a maioria sequer sabe o que eles têm a dizer. Se não sabem é por causa da TV aberta, que não da espaço. Um ciclo vicioso, aonde todos saem perdendo.

Na TV francesa existem dezenas de programas de debates politicos. Neles, os politicos convidados fazem questão de discutir os assuntos mais polêmicos e de responder às perguntas da oposição, por mais agressivas e destrutivas que elas sejam. Direitistas e esquerdistas dão a cara a tapa, inclusive os mais extremistas. Um canditato totalmente contrario à politica de imigração, por exemplo, não vê problemas em assumir isso em rede nacional. Essa transparência de ideias faz com que os eleitores conheçam os fundamentos de cada partido e/ou canditado. No Brasil, os politicos adotam a superficialidade para não desagradar grupos de eleitores, incorporando discursos convenientes e quase nunca verdadeiros nas suas campanhas. Aqui, o perfil de um candidato é formatado de acordo com as propostas do seu partido, enquanto no Brasil, a imagem de um canditato é moldada para atingir o maximo de eleitores possivel (haja vista a questão do aborto nessas eleições).

Como se vê, ainda temos muito o que aprender com os franceses quando o assunto é politica. Não so os nossos candidatos, que precisam evoluir como os daqui, mas também o nosso povo. Aprender a respeitar aqueles que têm uma posição politica diferente da nossa ja seria um otimo começo.



¹. Ricardo Corrêa Coelho, Os Franceses, São Paulo, Editora Contexto, 2007, p.259.

19 comentários:

K∂riиє* Smith. disse...

Se tem 3 coisas que morar fora do Brasil me ensinou foi que 1)Ninguém, em nenhum país está satisfeito com seus políticos. 2)Jovens brasileiros são menos interessados em políticas do que os jovens Europeus.
3)E quem é culpado d a situação atual da política brasileira, somos nós, que achamos engraçado votar em um analfabeto e depois reclamarmos do que nos aconteceu.

E concordo, independente de preferências, o respeito tem que se manter.

ALVES DE MORAES, Gustavo disse...

Nao costumo comentar de politica, mas acho que essa merece: algo q sempre me irritou no Brasil foi o sujeito que se diz entendido de politica mas que é um politiqueiro que nao sabe absolutamente nada de nada (até pq no Brasil tudo esta uma bagunça em termos de ideal partidario), eu sempre dizia que era igual aquele idiota que diz "sou framengo até morrer" e vc pede pra escalar o time (pelo menos os principais) e o cara diz "Romario, Savio, Edmundo e alguns outros" (ouvi isso em 2007, muuuuitos anos depois dessa escalaçao que qq real flamenguista deveria é esquecer!!!).

Esse tipo de caboclo (o politiqueiro, nao necessariamente "framenguista") deveria ao minimo ler um pouco antes de falar tanta merda, e isso infelizmente é o q a gente mais vê no Brasil! Depois disso querem mesmo dizer que o Brasil é sério?

Tiririca pra presidente, com Vêronica Costa "Mãe Loira"(que tb se elegeu com muuuuitos votos) como vice! O pior de tudo é q um dia, quando vi Clodovil e Frank Aguiar ganhar, disse "agora so falta o Tiririca"! Achei melhor nao dizer nada dessa vez!

Leonardo disse...

Amor,

Eu também acho incrivel o quanto a politica é discutida aqui na TV francesa. Eh claro que, como em todo lugar, existem os telejornais tendenciosos, mas também tem muita mesa redonda. Ao ser convidado pra um programa desses, um ministro, senador ou deputado ja sabe precisara defender solidamente as suas idéias, pois quem é contra vai tentar destrui-las. Nessas horas, esse espirito contestador do francês acaba contribuindo muito para ampliar a discussão. Quem sai ganhando no final é o telespectador, que pode até ser contra uma idéia ou outra, mas que teve a oportunidade de conhecer bem os dois lados. A impressão que eu tenho é que aqui o politico é mais exposto à opinião publica que no Brasil. La os politicos passam seus mandatos protegidos nas suas câmaras e so se sentem obrigados a prestar conta do que fazem nas vesperas de eleição ou numa CPI.

Mais uma vez vc conseguiu ir bem além da simples defesa de uma posição politica como esta na moda nessa época de eleição. Otimo post.

Bjos

Mirelle Siqueira disse...

Karine e Gu,
Eu não acho justo pegar no pé do Titirica como esta sendo feito. Acho que ele tem a mesma capacidade de ser politico que outros tantos eleitos este ano, ou seja, nenhuma. O cara que se veste de palhaço pode ser até mais serio e capaz que o de terno e gravata, também sem estudo algum. Existem milhares de engravatados tão ou mais despreparados para governar o nosso pais, o problema esta longe de ser o Tiririca.

Perguntei para a minha professoa o que era preciso para se tornar o presidente da republica francesa e ela disse que é necessario frequentar as escolas mais renomadas e exclusivas, onde so os alunos que tiraram boas notas a vida toda conseguem entrar. Contei pra ela que no Brasil elegemos dançarinas, cantores, comediantes e ela achou que eu estava brincando. Dai usei o Lula como exemplo concreto,dizendo que ele não terminou nem os estudos basicos. Ela, toda sem graça e querendo me consolar, disse que nao sabia que esse tipo de acontecia no Brasil. Ô se acontece!

Sou e sempre fui, contra o povão poder entrar para a politica sem antes se preparar. Ser presidente, vereador, senador, sei la!, demandam qualidades e competências que um feirante não tem. Então é simples, quer ser politico porque acha que pode fazer mais pela nação do que os "engravatados" que estão la? Então antes você precisa estudar politica e economia por 5 anos na universidade e so depois poderia entrar em um partido.

Se para salvar vidas, é preciso ter um diploma, para projetar pontes e ensinar nas escolas também, por que para exercer o cargo mais importante do pais,que mexe diretamente com a vida de quase 200 milhões de pessoas, nao seria?

Aposto que se o borracheio/cantor/humorista que decide ganhar uma graninha sendo politico, tivesse que estudar 5 anos pra isso, ele desistiria na hora.

Sempre fui a favor de que pelo menos os ocupantes de cargos publicos importantes, fossem cultos e letrados, como acontece na França. Mas essas eleições deixaram claro que isso esta longe de acontecer.

Raquel disse...

De fato, algo que me incomoda imensamente em período de eleição é a intrangisibilidade das pessoas. Tenho colegas de trabalho que acolhem muito bem as diferenças dos outros até a matéria ser política. Daí, como somos servidores públicos, lhes parece inconcebível alguém não ser a favor da Dilma!

Outra coisa que me incomoda é que ninguém no Brasil parece votar visando ao bem comum. Tudo, tudo é decidido pelo interesse pessoal. Não sei se isso é uma questão cultural ou universal, mas é revoltante ver servidores públicos fazendo campanha para a Dilma porque ela "não vai acabar com os concursos públicos."

cintia disse...

Muito bom o post. Coloquei algo parecido no meu blog. Parece que todo mundo no Orkut, Facebook, Blogger... etc, virou assessor politico, ne? Eh tudo tao preto e branco que da medo mesmo. Concordo.

Beijos!

Iara Fonseca Schmidt disse...

Eu tbm confesso que estou aliviada ... não teria votado em nenhum dos dois candidatos tbm ... mas essa historia de "agressão" ma deixa meio descrente =/ O importante é ter um espeço pra poder falar sobre o assunto, assim quem sabe a gente não vai evoluindo um cadim ?!

Adorei o post e pela primeira vez me senti à vontade e com vontade de falar sobre politica ! rs ... mas sem mta polêmica ...hehehe !

Mr. Lemos disse...

A falta de respeito quanto às posições políticas é ruim, mas não tão grave quanto a batalha xenofóbica que aconteceu nos últimos dias. Muito triste perceber o quanto ainda é vivo(?) o preconceito com quem nasce nos lindos norte e nordeste do nosso país...

Mirelle Siqueira disse...

Irmão, tive um professor muito bom no colegial que defendia a separação do Brasil em Norte e Sul. Por questões tão bem colocadas, que eu passei a acreditar que seria mesmo uma boa idéia. Por questões geograficas, governamentais, de interesse, mas sem o tom preconceituoso que vi nos ultimos dias. Dai eu, bobinha que sou, cai na bobeira de tuitar que q idéia de separação ja não me parecia tão ruim. Não pelos nordestinos serem menos evoluidos como os imbecis disseram, mas por achar que o nosso pais é enorme demais pra ser governado por uma so pessoa. Se dividisse, o governo poderia se concentrar em problemas mais localizados. Não é a toa que os paises da Europa são desenvolvidos, são tão pequenos! Mas enfim, dai quando comecei a ver os comentarios agressivos no Tuiter, vi que não era como eu pensava e fiquei com medo de ser mal interpretada. Ontem a noite, eu e o Leo passamos uma hora em um debate caloroso aqui em casa sobre as eleiçoes e esse papo de separar ou nao. Os vizinhos deviam pensar que estavamos brigando, tamanho era o nosso entusiasmo. No final, demos beijinhos, fomos dormir e acordamos nos amando da mesma maneira. A questão é essa, saber conversar, saber ouvir. E dai que a posição politica do meu marido é contraria à minha? Um ser humano que se resume à politica é pequeno demais. Nos vamos muito além disso.

Beijocas!

Valéria disse...

Oi Mirelle, que post bem escrito e que expressa com clareza o que vivenciamos nestes ultimos dias principalmente. Na nossa família vimos quase surgirem brigas por causa de divergências políticas, é triste isso, a intolerância, seja ela em que tema for é preocupante e assustador!

Ana Duarte disse...

Ola, nunca comentei aqui no blog! confesso que sou de esquerda e so nao votei na Dilma por estar na França.
E sinceramente, comentarios sobre o analfabetismo do presidente Lula me deixam pasma.

O cara que vocês estao chamando de analfabeto fez muito mais pelo Brasil do que um bando de doutores. Entao eu pergunto, sera que titulos seriam tao importantes assim? o Lula mostrou que nao, e acho uma pena que muitos brasileiros nao consigam enxergar isso.

Ana

Oscar disse...

Graças a Deus isso tudo acabou

Infelizmente o pior de tudo é saber que tanto se um o outro candidato ganhasse o Brasil iria continuar na mesma..
Infelizmente falta educação para o Povo de nosso país, que de certa forma ainda troca o voto por um prato de comida. Basta olhar a distribuição dos votos neste segundo turno pelos estados no Brasil.. Se fossemos um país onde os cidadões pudessem exercer sua cidadania plenamente essa divisão não seria tão notória.. Por que Será que a candidata de esquerda teve mais de 65% dos votos em toda a região nordeste?! Enfim o negócio e esperar mais quatro anos por um milagre que infelizmente sabemos que não irá acontecer tão cedo..

Mirelle Siqueira disse...

Oi Ana,

Seja bem-vinda.
Então, eu so citei o Lula para a professora porque aqui na França todo mundo sabe quem ele é e usa-lo como exemplo naquela situação era certo pois ele realmente não terminou os seus estudos né? Nada de dizer se é certo ou errado, é fato e por isso usei ele como exemplo. Mas como você bem sabe, o Lula não é o nosso unico politico não letrado, infelizmente. Temos um bando de outros, no PT e em todos os outros partidos.

E eu continuo achando sim, que para ser presidente é preciso fazer uma faculdade especifica, o que não existe no Brasil. Não que a faculdade seja garantia de capacidade, mas ela habilita a pessoa a exercer o cargo. Como nas outras profissões, você pode ser super talentoso em uma area e ainda assim, vai procurar o curso para aperfeiçoar o que ja sabe. Afinal, ensino nunca é demais né?

Quase toda criança, quando pequena, diz que quer ser presidente. Acho importante ensinar à essas crianças que para chegar ao cargo mais importante do pais é preciso se preparar, estudar, ler muito, conhecer sobre economia, politica, relações externas, calculos, enfim. Como dizer aos nossos filhos que para ser politico no Brasil basta virar cantor primeiro ou se filiar à um partido e pronto, se consegue?

- Mas não preciso estudar mãe?
- Não filho, não é necessario.
- Mas se eu quiser ser médico, engenheiro ou professor eu preciso ir pra faculdade?
- Para isso sim, precisa.
- Ah não, então eu prefiro ser presidente do Brasil, é mais facil!

Tenta explicar isso para um francês para ver se algum entende. Nem eu , que sou brasileira, entendo.

Leandro Wirz disse...

Mirelle, concordo plenamente com seu post. As pessoas emburrecem no período pré-eleitoral e tornam-se ainda mais agressivas patrulhando a livre opinião alheia. É preciso respeitar a divergência de opiniões em política, em religião, em futebol, no ambiente profissional, no casamento etc etc.
Nem a esquerda, nem a direita, nem o centro são donos da verdade.
Viva a liberdade e viva a diferença.

Adriana Pessoa disse...

Mirelle,
só para relaxar;
tem um papo rolando por aqui que o Tiririca disse sim, que vai fazer o teste para ver se ele é alfabetizado ou não.
Mas só se for Presidente Lula, a pessoa a corrigir sua prova!!

Bjs

Tabuleiro Chic disse...

Kkkk!!! Adorei!! Vamos esperar o Lula corrigir o tiririca!
Adorei o post e o blog! To seguindo! Passa no TC para conhecer!!
Bjos,

Flavia

Www.tabuleirochic.com

H. Machado disse...

Quem não teve coragem de anular, também respira. Aliviado, ou talvez nem tanto.

Anônimo disse...

Mirelle, o Tiririca ser eleito nao é um grande problema. Duvido que sua pretensao de roubar dinheiro do cidadao pagador de altos impostos seja muito maior do que tantos outros letrados/engravatados/conhecedores ou nao de economia e politica. O problema sao os outros tres candidatos que entraram na "aba" do tiririca. Esses nem precisaram mentir que eram honestos, ja que adquiriram os votos que "sobraram" do tiririca.

sobre outro assunto : "Não é a toa que os paises da Europa são desenvolvidos, são tão pequenos!"
O tamanho de um pais pode servir em seu beneficio ou pode ser um fator negativo, depende da maneira como é administrado. Uma boa administracao pode em momentos de seca no nordeste com safras ruins aumentar o subsidio agricola com verba do sudeste e em uma olimpiada que movimenta a economia e traz verba para o pais concentrar investimentos no sudeste. O pre-sal pode beneficiar pessoas que nunca viram o mar. Esses sao os pontos positivos do tamanho do Brasil, se bem adiministrado poderia nos trazer consequencias incriveis.

Isabella Akerman

Anônimo disse...

Oscar,
Acho muito digno "trocar" voto por um prato de comida. Se vc vivesse no universo de um miseravel, sem esperanca na vida e com tantos problemas a enfrentar, e recebesse ajuda vc nao votaria em quem fez isso por vc ? Sinceramente, educacao pra eles é privilegio, muito longe do essencial. Existem pessoas que tem necessidades mais basicas do que estudo e cultura. Nao vejo ignorancia alguma no voto a Dilma de pessoas que vivem em realidades absurdas. Discutir politica é um poder nosso, pq nossa condicao permite, infelizmente nao exploramos essa conquista por acreditarmos que nosso poder se limita a votar daqui a quatro anos e que "nada vai mudar". O "negocio" nao acredito que seja esperar, pois como vc mesmo disse milagres nao vao acontecer. Eles roubam justamente pq a populacao, esperando, esquece que politica existe.
Isabella A.

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