O clima esquentou tanto na minha ultima aula de ciências politicas, que decidi prolongar a discussão aqui no blog. Na verdade, não permitiram que eu voltasse para o nivel B2, então continuo me esforçando para sobreviver na turma mais avançada, do C1, e no meio daqueles experts todos, fico acanhada para esmiuçar as minhas teorias. Em português as ideias fluem melhor.
No ultimo dia 14, foi aprovada pelo senado francês uma lei que proibe a utilização de "qualquer traje que cubra o rosto em lugares publicos". Trocando em miudos: proibiram o uso da burca. As burcas são vestes como essas ai ao lado, que cobrem o rosto e todo o corpo das mulheres islâmicas, deixando apenas os olhos de fora. Pois bem, eu me recuso a falar sobre religião. Não que isso não se discuta, se discute, é claro. So que não comigo. Eu tenho o meu Deus e pouco me interesso pelo Deus dos outros, pois acho que essa relação tem que ser egoista mesmo, eu com o meu e você com o seu. Mas para quem não esta muito por dentro do assunto, vou resumir o que pensam os dois lados da moeda (contra e a favor).O governo francês diz que a proibição do véu integral é uma questão de segurança publica, ja que não se pode ter certeza se quem esta debaixo do véu é uma mulher religiosa ou um terrorista armado. Os liberais temem pela democracia, alegando que a proibição da burca é um passo muito grande em direção à limitação da liberdade individual. As feministas condenam o uso do véu integral, pois acreditam ser um atraso machista de uma religião que insiste em manter as mulheres submissas. Os maridos islâmicos se defendem, dizem que suas mulheres não podem se exibir por ai para não colocar em tentação os marmanjos que, ao verem um rosto bonito descoberto, podem sentir vontade de estuprar a moça, pobrezinhos. As mulheres que se cobrem da cabeça aos pés, bom... muitas delas o fazem por pressão dos maridos, mas existem também as que usam o véu por convicção mesmo e não queriam deixar de ter esse direito.
Posto tudo isso, assumo que sou integralmente a favor da proibição do uso da burca em solo francês. Democracia é um argumento perigoso, com muitas nuances que podem ser usadas como desculpa para justificar ações que sequer cabem no conceito geral da coisa. A França é um pais democratico e maravilhoso, com varios defeitos, é verdade, mas maravilhoso - e muito tolerante, vale dizer. Não sei em quantos outros lugares do mundo, pessoas tão diferentes podem habitar no mesmo prédio, estudar na mesma escola ou frequentar os mesmos parques com tanta naturalidade quanto aqui.
Vejam bem, eu não disse que as pessoas convivem umas com as outras, mas francês sabe (ou finge saber muito bem) onde termina o seu espaço e começa o do outro, por isso é mais tolerante aos habitos e pessoas que não se encaixam nos seus "padrões". Por outro lado, ha quem diga que francês é xenofobo (que tem preconceito contra estrangeiros) e esse é um assunto que renderia muitos posts. Por agora, me limito a dizer que no dia a dia eles são respeituosos, embora a maioria prefira não se misturar.
Acontece que ninguém colocou uma arma na minha cabeça me obrigando a morar aqui, vim porque eu quis, assim como vieram todos os não-franceses que aqui estão ou estiveram. Se eu não me acostumo com a falta de sal na comida, o problema é meu. Impossivel é forçar todos os françolas a comerem arroz com feijão nas refeições so porque o paladar deles é atrapalhado. Eles estão na casa deles, quem vem de fora é visita! Até onde minha mãe me ensinou, visita não define as regras da casa, apenas se submete à elas. Visita não tem direito de mudar a posição de um vaso, nem a cor do sofa. Ela pode ir embora se estiver incomodada, mas se escolher ficar, precisa de adaptar aos habitos que os donos da casa estabeleceram, por isso eu vivo experimentando novos pratos por ai. E essa historia de obrigar as mulheres a se cobrirem integralmente, fere diretamente os principios de igualdade, liberdade e fraternidade da republica francesa.Então amigo, se você conseguir vir morar nesse pais (digo conseguir, porque esta cada dia mais dificil), você tera os mesmos direitos dispensados aos franceses e recebera todas as ajudas financeiras que um francês da gema pode receber do governo, mas tera também que se adaptar às leis que eles, os donos da casa, julgam ser as mais corretas para manter a ordem desse pais, entre elas, mostrar o seu rosto quando se relacionar com as outras pessoas. Nada mais igual e fraterno, certo?























