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sexta-feira, 18 de junho de 2010

A beleza dos sentimentos feios

Eu não conseguiria descrever tão bem a derrota deliciosa dos Bleus na noite de ontem. Ernani o fez com maestria:

"No começo era um mundo justo e bonito. Os homens eram iguais e respeitavam-se mutuamente. Só havia amor, paz, harmonia e tolerância. A vida correu tranquila no planeta por quase dois milênios. Até que, de 1998 a 2009, a França matou o Brasil em duas Copas e roubou da Irlanda a chance de participar de outra. Tanta violência alegrou o diabo e ele finalmente criou a RAIVA, o ÓDIO e o RANCOR. Veio o ano de 2010 e o México, sob coordenação do próprio capeta, nos apresentou à saborosa VINGANÇA. E a França tomou no %¨$&$¨#!

Não é lindo??

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Do narrador irlandês, logo após o segundo gol do México:

"Vou ter que botar mais uma caixa de cerveja pra gelar."

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Nunca foi tão bom ver o sofrimento alheio..."

terça-feira, 15 de junho de 2010

O que vale são os 3 pontos...

... a menos na balança. Foi tão ruim que da até preguiça de escrever. Kaka e compania não brilharam o suficiente para ocupar espaço nesse blog, mas meu esforço merece destaque - sim o MEU. Por semanas, fiz um regime forçado para caber na unica camisa da seleção que trouxe na mala comigo. Tão antiga que não comportava meus 4 quilos a mais, ganhos à custa de muitos croissants. Também tive coragem de pintar as unhas de verde e amarelo antes de pegar o metrô e andar pelas ruas do centro da cidade. Assim, sai orgulhosa, com camisa, bandeira, unhas coloridas e marido uniformizado a tiracolo, escancarando para todo o mundo que nas minhas veias corre sangue de mulato estrangeiro. So de 4 em 4 anos é que realmente sinto orgulho disso.

A festa oficial dos brasileiros era aqui do lado de casa. "Telão, rodada de truco, caipirinhas" avisava o convite. Atravessei a cidade para fugir dele. Nunca assisti um jogo de Copa do Mundo fora do Brasil, não teria muito sentido me juntar aos compatriotas para vivenciar o mesmo ambiente dos meus outros sete mundiais né? Queria mesmo era ver de perto as reações dos franceses quando a melhor seleção do mundo entrasse em campo.

E não deu outra. Vaias, piadinhas e muitas palmas para Yun Nam, que diminuiu para a Coreia do Norte. Até eu aplaudi, o gol foi bonito mesmo. Sem falar que ao marcar contra a unica seleção cinco vezes campeã, os jogadores garantiram uma volta segura para casa. Agora podem perder por goleadas historicas que o ditador maluco que manda por la não vai nem se aborrecer.

Sai do bar com o coração apertado por causa dos escolhidos do Dunga, mas com a consciência tranquila, é como se os proprios franceses tivessem me dado carta branca para torcer contra eles. A seleção brasileira esta para os franceses assim como a Argentina esta para nos brasileiros. Odio trocado não doi.

Domingo tem mais, a droga do nosso time versus o time do Drogba, como bem disse o Leandro.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Questão de lealdade

Pois é, começou. E com o pé esquerdo, fazendo cair por terra o pensamento de que é com o direito que começam as boas coisas da vida. Tshabalala (com sua canhota magica) lançou um chute perfeito no ângulo do goleiro mexicano. Os anfitriões foram os primeiros a balançarem as redes. Muito justo.

Justo porque esse povo merece receber o Mundial. Não so pela pobreza que grita por ajuda, não so pelas dificuldades da sua gente, mas porque aqueles que espalham alegria gratuitamente merecem ganhar sorrisos largos e atenção na mesma medida. A Africa, que ja nos deu tanto, precisa que olhemos mais para ela.

A abertura foi emocionante, com apresentações simples mas cheias de energia. No estadio, a torcida fazia o seu espetaculo à parte. Muitas vuvuzelas, caras pintadas e cores, onde o verde e o amarelo predominavam. Felizmente, temos a sorte de dividir com os anfitriões a combinação gritante de cores que estapam as camisas das nossas seleções. As semelhanças não param ai. Não fossem os narradores dizendo que ali era a Africa, eu poderia jurar que as imagens vinham do Brasil, de Salvador talvez. Nossos negros, nossa festa, os batuques e um pouco da miséria no fundo confundem mesmo. Estamos em casa.

Para ser justa, não somos os unicos parecidos com eles, também vejo um pouco da França no pais que recebe esse Mundial - não pelo carisma, claro. A intolerância racial de la também existe aqui, no primeiro mundo. A diferença é que na Africa do Sul esse problema é notoriamente conhecido, amplamente divulgado e, talvez por isso, esta caminhando para se resolver. A solução veio ha 16 anos com Mandela e o fim do Apartheid, mas convenhamos que esses poucos anos ainda não são suficientes para apagar dores e conflitos de pessoas que viviam sem liberdade, respeito ou tolerância. O tempo faz milagres e, nesse caso, o tempo vai precisar de um pouco mais de calma.

Enquanto os africanos parecem estar buscando uma convivência melhor entre brancos e negros, a França segue em caminho oposto, fechando os olhos para o mesmo problema (que não se limita à cor da pele, mas também às origens das pessoas) e rebola para manter firme a aparência de ser um pais onde liberdade, igualdade e fraternidade têm o mesmo peso para todo tipo de gente. Desculpa, Rousseau, mas não tem. Quem sabe quando pintar por aqui um Mandela com coragem de tocar na ferida e discutir os tabus?

Mas falemos de futebol, que alias, quase não deu as caras nos 90 minutos do jogo entre França e Uruguai. Melhor assim, zero a zero foi o placar ideal para mim, que jamais poderia torcer para nenhum dos dois times. Pelo Uruguai por causa de 50, quando os malditos levantaram a taça no nosso Maracanã depois de vencer o Brasil. A maior tragédia da historia do nosso futebol, diria o meu avô. Pela França por causa de 86, 98, 2006 e da mão malandra do Henry que deixou a Irlanda do Thiago e do Ernani fora do Mundial.

Tudo isso pode parecer estupidez aos olhos dos que não se rendem ao futebol. Aqui mesmo na França, pouca importância se da para o (meu) esporte. O torneio de Roland Garros, que dominou os noticiarios nas ultimas semanas, é a prova de que aqui os esportes individuais fazem mais sucesso que os coletivos - tipico deles né? Tai outro motivo para torcer contra os Bleus, isso e as pizzas gratis que meus amigos vão comer na Irlanda. Como eu disse, questão de lealdade.



PS: Se você gosta de futebol e de textos muito bem escritos, clique nos nomes dos meninos ali em cima, vale a pena!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Se depender da alma do negócio...

Sabe aquele papo de que confiança em excesso pode colocar tudo a perder? Ou os franceses levam o ditado muito ao pé da letra ou realmente estão se lixando para o Mundial. Fiquei chocada com o pouco caso dispensado à convocação dos jogadores que vão defender os Bleus na Copa do Mundo. Como o Brasil também anunciou hoje a sua lista, pude comparar as diferentes maneiras de midia e povo lidarem com essa instituição sagrada que é o futebol.

Do lado de ca do oceano, com minhas 5 horas de fuso horario, acompanhei o clima tenso em torno da lista mais esperada dos ultimos quatro anos. Na hora marcada, programação interrompida, apresentadores uniformizados e comentaristas à postos. Um verdadeiro circo. Eu roia as unhas, como se esperasse ver o meu nome entre os dos 23 guerreiros que vão defender o Brasil daqui a 30 dias. Francês nenhum entenderia.

Léo chegou do trabalho apressado, jogou sua pasta no chão e foi logo ligando o computador para saber quem eram os escolhidos ("Adriano, Adriano?" Perguntava o flamenguista apaixonado). Depois de constatar que seu imperador não vai entrar em campo, relaxou e disse: - As oito horas sai a lista da França, vamos ver quem o mané do Domenech vai chamar.

Parece que o tal treinador é um dos caras mais odiados por aqui. Lhe falta carisma, mas por sorte ele acaba conseguindo bons resultados, dai vai ficando no cargo. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Dunga segue pelo mesmo caminho, mas sei la porque diabos, confio nele.

Oito horas e eu esperando o circo francês, que não chegou. O jornal entrou no ar e depois de uma duzia de matérias sem graça, o treinador apareceu sentado na bancada do "20 heures" (O 'Jornal Nacional' daqui) e durante sua participação, que não durou mais que 5 minutos, anunciou seus convocados. A aparição mais sem graça que ja foi ao ar, arrisco dizer.

Não teve coletiva, nem 500 jornalistas, nem telão como no Rio. O francês que levantou no final do jornal para ir ao banheiro, provavelmente não sabe até agora quem vai defender seu pais na Copa do Mundo. Talvez não saiba nem que vai ter Copa do Mundo. Ainda não encontrei um filho de Deus desfilando as cores da seleção francesa pelas ruas. Não tem faixas espalhadas pela cidade, não se fala sobre o assunto. A não ser nas campanhas publicitarias.

È verdade que minha area é outra e que entendo muito pouco de marketing, mas devo dizer que achei muito esquisita a criatividade francesa usada para aumentar as vendas em época de Mundial. Duas grandes redes de eletrônicos destacam em letras garrafais o anuncio mais ou menos assim: "Compre sua televisão ou computador aqui! Se a França ganhar, devolvemos o seu dinheiro."

Ahn????? Isso é que é suporte hein? Se eu fosse jogador, me sentiria obrigado a vencer so para dar prejuizo a essas empresas (ok, não so, mas também). Porém, como ninguém aqui em casa é boleiro, nos resta tirar de vez a França das nossas bolsas de apostas. Não que antes ela fosse uma das favoritas (afinal, se classificou na bacia das almas com gol de mão), mas se nem os proprios acreditam que é possivel, quem sou eu para discordar?!


*Para ver as listas, joga no Google pô!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Minha honra nas mãos do Dunga

Ainda faltam 62 dias para a bola começar a rolar, mas ja tem gringo me fazendo subir pelas paredes! E olha que dessa vez não estou falando de francês. Esses, coitados, so passaram a gostar mesmo de Copa depois que derrotaram os melhores do mundo em 1998, mas não vem ao caso.

Pela primeira vez, uma pessoa não falou com carinho de Pelé e Ronaldo ao saber que sou brasileira. Pelo contrario, fez careta e ainda falou mal do Kaka. Disse que o pobre menino não joga bem e so chegou onde esta graças ao seu rostinho bonito. Da para discutir futebol com um cara desses, português ainda??? Ora pois, Cristiano Ronaldo seguiu o mesmo caminho.

Não conheço muitos portugueses para afimar que eles são todos tão azedos quanto o vendedor do mercadinho português de Lyon, mas sai de la com a impressão de que até o final da Copa, a cena (descrita abaixo) vai se repetir um bocado, especialmente no final do mês, quando eu e o Léo visitarmos minha mãe em Coimbra:

Mirelle, em português:
- Bom dia, esse bacalhau com nata é o que?
Portuga, em francês:
- Bacalhau, obviamente.
Mirelle, em português:
- Sim, mas "nata" quer dizer o que? Tipo um creme de leite?
Portuga, em francês:
- Vocês não tem isso no Brasil não? Nata ué! Tipo um creme.
Mirelle (sem entender porque diabos o baixinho bigodudo responde tudo em francês) pergunta, em francês:
- Desculpa, você é português ou francês?
- Os dois. (responde ele em português - vai entender!)
- Hummm, saquei de onde vem o mau-humor... (brincadeira! Pensei isso mas não tive coragem de falar).

Comprei o maldito bacalhau com nata, so porque me dispus aqui no blog a provar comidas estranhas. No caixa, o baixinho continuava a me tratar mal. Não entendia porque o cara fazia questão de ser tão desagradavel comigo, ao mesmo tempo em que sorria e brincava com os outros clientes françolas.

- Esse feijão em lata aqui é parecido com o do Brasil?
- Esse feijão é português, feito em Portugal. Aqui é uma loja portuguesa, você sabia?

Eu, ainda em choque com a sinceridade agressiva do tiozinho e segurando um pacote de pão de queijo Yoki, respondi:
- Uai, isso aqui é português? Produzido no Brasil! Lê aqui, São Bernardo do Campo viu? Pertinho da minha casa, que até onde eu sei, fica NO BRA-SIL! - assim mesmo, quase gritando.

Dois franceses chegaram na fila e comentaram entre eles (em francês, obvio):
- Engraçado ver eles conversando em português né? Mas ela tem um sotaque diferente do dele...
- È porque eu sou brasileira e o sotaque do Brasil é muito mais bonito que o de Portugal! -
respondi, na lingua de Molière.

O Portuga, ja quase me colocando para fora, fez uma piadinha rapida que não entendi. Depois, foi quando falou mal do Kaka. O sangue subiu à cabeça, então tive que perguntar:
- Você não gosta do Brasil?
- Não muito. Principalmente agora que vamos nos enfrentar na Copa do Mundo.

Bingo! Como é que eu não tinha pensado nisso antes? O confronto, marcado para o dia 25 de junho, sera muito mais que uma disputa entre duas boas equipes. Trara à tona a rivalidade entre colonizadores e colonizados, entre povos que se amam e se detestam de maneiras muito peculiares. Os portugueses claro, vão perder. Dai, a hostilidade do bigodudo malcriado. Quando a ficha caiu, meu sorisso apareceu forte, quase que sarcastico, ao mesmo tempo em que meu coração se compadeceu com a angustia do torcedor apaixonado. Enfrentar o Brasil logo na primeira fase não deve ser nada agradavel. Assim como não é, lidar com português em véspera de Mundial.

- Nos vemos dia 26 (disse eu, agendando nosso proximo embate para o dia seguinte ao jogo). Prometo comprar aqui as cervejas da minha comemoração. - E sai.

Agora é rezar para que a minha protetora, Nossa Senhora de Fatima (que é portuguesa, vejam so) faça brotar nos pés dos convocados de Dunga, a garra que faltou em 2006. Senão, vai faltar pão de queijo no café da manhã aqui em casa...


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mãozinha safada

O Léo resumiu seu sentimento, quando o juiz apitou o final da partida entre França x Irlanda, que disputavam uma das ultimas vagas para a Copa do Mundo de 2010, com a seguinte frase: "Uma vergonha ir para a Copa desse jeito". Pois é, na repescagem e com gol roubado, a França garantiu presença no mundial.

Para acompanhar a partida fomos à um tradicional pub irlandês certos de que matariamos dois coelhos com uma cajadada so. Ele beberia Guinness e eu poderia ver de perto como os françolas se comportam em jogos da seleção. Antes que a bola rolasse, os unicos brasileiros perdidos no Saint James (nos), discutiamos sobre o placar final. O Léo jurava de pés juntos que era contra a classificação da França por tê-los visto, de dentro do estadio de Frankfurt, despachar o Brasil em 2006. Eu era a favor, porque ainda não conheço muitos françolas para zoar e vê-los fora agora não teria a mesma graça. Mas foi so a bola rolar para constatar que ambos estavamos mentindo.

Entre os gritos acanhados dos franceses durante os inumeros ataques da Irlanda ,que dominava tranquilamente a partida, Robbie Keane abriu o placar para o time visitante. Gritei goool como se fosse o Ronaldo marcando na final do Paulistão! Não sei de onde saiu tanta felicidade! O Léo balançou a cabeça em sinal de desaprovação, foi quando notei que ele ja adquiriu amor pela França, por mais que negue de vez enquando. Pode até ser dificil torcer a favor do time que nos mandou para casa, mas querer que a seleção do pais que o abriga ha tantos anos perca, é praticamente impossivel. Como este sentimento ainda não habita em mim, pulei feito doida quando a câmera focalizou a expressão triste do Zidane na tribuna de honra. Conheci, por pouco tempo, o tal gostinho da vingança.

Pouco tempo mesmo, porque alegria de pobre... vocês ja sabem. De novo ele: Thierry Henry. O autor do gol contra o Brasil em 2006, deu uma mãozinha para o companheiro Gallas garantir a classificação dos Bleus. Mãozinha nada! O cara enfiou os 5 dedos na bola com uma categoria de deixar Maradona no chinelo! Graças à ele, a França estara na Africa do Sul. Contando com a astucia do meu querido (?) Dunga, espero que o troco finalmente chegue no proximo ano. Fico triste de ver uma seleção tão esforçada como a Irlanda ficar fora por malandragem alheia. E o pior: malandragem francesa! Que ca entre nos, não é tão astuta quanto a nossa...

Feio, muito feio!

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