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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Tudo a seu tempo

Finalmente minhas aulas de francês recomeçaram. Chegando la, advinha? Meu nome estava em uma lista na qual ele não deveria estar. Então fui correndo até a secretaria avisar que eles haviam cometido um erro. "Não madame, os professores se reuniram e acharam que o seu francês evoluiu muito em pouco tempo e que você conseguira acompanhar tranquilamente as aulas do C1". Oi? De onde foi que brotou esse francês todo que esse povo enxerga e eu não?

C1 é a penultima etapa do nivel mais avançado no aprendizado da lingua francesa. O basico é o A, dividido em A1 e A2, depois vem o nivel intermediario B, com o B1 e B2 e por fim, o nivel avançado C, C1 e C2. Semestre passado eu cursei o B1, ou seja, pulei o B2. Quer dizer, me pularam, né? Porque eu continuo falando bulhufas de francês. Ok que eu tirei notas altas no semestre passado, que me esforcei para fugir dos textos basicos nas provas e que gastei todas as 50 palavras do meu vocabulario no teste oral, mas, meus amigos, o meu francês não é fluente.

Engraçado é que nem ruim o meu curso é. Pelo contrario, é um dos mais puxados e reputados de Lyon, um centro de estudos da lingua francesa que fica dentro de uma universidade linda e super tradicional. Por isso, contente com tantos elogios, corri para pegar a primeira aula na turma dos avançadinhos. A alegria durou pouco porque, chegando la, não vi nenhum dos meus amigos chineses do semestre passado. No lugar deles encontrei um argentino, duas mexicanas, uma venezuelana, quatro japoneses, uma egipcia, uma americana, uma chilena, uma peruana, uma russa e um cara da Arabia Saudita chamado Sultão!

A grade do curso me assustou um pouco: ciências politicas, economia, historia da arte e literatura moderna se misturam às aulas de compreensão oral e expressão escrita. Oras, estou gastando o meu rico dinheirinho para aprender a lingua francesa e não sobre a literatura ou economia desse povo. Se eu quisesse estudar esse tipo de matéria, não teria me inscrito em um curso de francês, né? Claro que são assuntos que me interessam, mas antes eu quero aprender a conjugar os verbos usando forma e tempo corretos, a formar frases bem articuladas e a escrever esse tipo de texto que escrevo em português, em francês. Não quero ser mestre em ciências politicas. Pelo menos não nesse momento.

Por isso ja decidi, vou pedir para me juntar novamente aos meus camaradas chineses. Tenho certeza que as lições intermediarias do nivel B2 serão mais uteis na minha vida pratica do que as aulas requintadas do C1 - pelo menos nesse momento. De que me adianta saber tudo sobre os movimentos literarios do século XIX, se eu mal consigo conjugar o verbo 'querer' no subjuntivo? Tem horas que é preciso voltar um pouco para avançar ainda mais depois ."Reculer pour mieux sauter", como dizem por aqui.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Mulher sofre

Adiei o compromisso o maximo que deu, até que não deu mais. Exigi que minhas velhas calcinhas brasileiras sobrevivessem além da conta, tamanho era o medo de entrar em uma loja de lingerie francesa. Acontece que a agua daqui tem calcario demais e lava daqui, lava de la, minhas calcinhas decretaram o fim de suas atividades mais cedo que o esperado. O Léo (que precisou lidar com as minhas lingeries surradinhas em plena lua-de-mel) me acompanhou rumo ao desconhecido. Não fosse ele, a vendedora não teria entendido que eu procurava uma calcinha não tão grande como as da minha avo, mas que também não ficasse entrando, bem, você sabe onde. Infelizmente, isso não existe por aqui.

Se por um lado ser mulher na França da um pouco de trabalho, por outro, tem la as suas vantagens. Desde 1975 o aborto é legalizado, além de gratuito - ja que o governo reembolsa o dinheiro gasto com a pratica nos hospitais. Qualquer mulher pode interromper a gravidez até os 3 meses de gestação, basta marcar um horario em um hospital publico ou privado. Lembrando que no Brasil, o aborto so é permitido em caso de estupro ou quando a gravidez coloca a vida da mãe em risco.

Sei la se sou a favor ou contra o aborto. Penso que nenhuma mulher precisa abortar, ja que todas temos opções para não engravidar, mas não da para negar que o aborto é praticado nos quatro cantos do mundo. Cerca de 8 milhões de mulheres sofrem com as complicações provocadas em clinicas clandestinas, sem falar nas 70 mil que morrem todo ano. Aqui, as mulheres não precisam se arriscar nas mãos de açogueiros nem tomar remédios perigosos para abortar. Disso eu gosto.

Vale deixar claro que o governo francês não é muito fã dos abortos, pelo contrario. Existem varios programas de incentivo à gravidez. O que eles mais querem por aqui é que cada mulher gere pelo menos uns 5 filhos! Por causa dass guerras, que modificaram completamente o modo de vida dos franceses (inclusive na constituição das familias), a taxa de natalidade foi diminuindo tanto que o governo decidiu agir ao perceber o caos que se instalava no pais - que tem uma população enorme de idosos (40%). Para estimular as mulheres a terem filhos, o governo adotou um pacote de medidas que realmente torna mais facil a vida daquelas que decidem ser mães. O objetivo é que essas crianças cresçam logo e se tornem uma população ativa para pagar as aposentadorias, que hoje consomem os recursos publicos da França.

As mamães com um unico filho recebem uma ajuda de 178€ por mês até a criança completar 3 anos. Mas a partir do segundo, existe até tabela para os subsidios, que são depositados direto na conta dos pais até as crianças completarem 20 anos: 2 filhos =120€ por mês, 3 filhos = 280€ por mês, 4 filhos =441€ por mês e + de 4 filhos = 158€ a mais para cada um. Isso vale para todos os casais (ou mamães solteiras), independente da situação financeira da familia. Tanto faz se é rico ou pobre, os subsidios são os mesmos. E as familias com renda maxima de 2.800€ ainda ganham um mimo de 890€ para preparar a chegada do bebê. Sem falar que na França, saude e educação são gratuitas, o que ajuda a aumentar a criatividade do Léo - que de uns tempos pra ca deu para imaginar pimpolhos dentro da minha barriga. Dai a minha preocupação em comprar calcinhas novas.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O dia que a gramática me fez chorar

Tudo doi. Doi a ausência dos amigos, doi a saudade do pão de queijo, doi ler o jornal e não entender tudo. Doi ir ao restaurante e não poder escolher entre galinhada e feijoada, doi não ter farofa nem banana frita. Doi não encontrar verde e amarelo nas ruas em ano de Copa, até a falta do cheiro do amaciante de casa doi.

Morar fora é abrir a cabeça e deixar crescer o coração, malditos os que não avisam que esse crescimento doi tanto. Dor fisica mesmo, de fazer chorar em sala de aula. Quando vi São Paulo pela ultima vez, da janela pequena de um airbus A330, pensei que quando eu chorasse seria de saudade, não imaginava que o culpado seria o subjuntivo de um verbo. Não que meu francês seja horrivel, mas é que para pensamentos rapidos não servem palavras contadas. Hoje meu vocabulario é pobre, cinza. Desde quando o basico serviu para mim?

Aqui eu ainda não encontrei a minha identidade, é como nascer mais uma vez. Bom por um lado, mas não por todos. Sinto falta da pessoa que eu era antes. Demorei tanto para me transformar em algo bom e quando consegui, deixei de lado. Maldita inquietude! Essa nova pessoa ainda não sabe o que gosta de comer nem como se vestir, também não sabe o nome de todas as ruas e não tem programas preferidos na TV, ela faz o que os outros fazem. Justo eu, que antes (achava que) sabia tudo.

Não imagino como sera a nova Mirelle, mas sei que ela vai falar francês! Depois, atrevida como é, vai brincar de ser gente grande e diplomada como uma excelente chef de cuisine, vai voltar aqui e se lembrar do dia que a gramatica venceu a batalha, depois Mirelle vai rir - quando se der conta de que quem venceu a guerra foi ela.

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