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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A greve da musica

Que francês é reclamão, todo mundo ja sabe. Ha quem critique tanta rabugice, mas ha também quem admire o jeito inconformado de ser desse povo. Graças a tanto bate-boca e à cara feia (que so eles sabem fazer) é que a população consegue ter direito a tantos beneficios. O jeito tradicional de mostrar descontentamento com algo, você ja sabe, é fazendo greve. Francês faz greve dia sim e no outro também. Faz parte do nosso dia a dia mudar o trajeto ou algum plano porque os motoristas de ônibus e condutores de trem estão em greve. Ou os carteiros, ou os professores, ou os cabeleireiros. Perai, cabeleireiros? Sim, eles também fazem greve.

Logo de manhã li a noticia no jornal: "Cabeleireiros farão hoje a 'greve do som' para protestar contra o aumento da taxa paga pelo direito de escutar musicas". Achei tão inusitado, que custei a acreditar. No caminho de volta para casa, entrei em dois salões com a desculpa de estar interessada nos preços. Queria mesmo era ver se estava rolando uma grevezinha basica por ali. E não é que estava? Nada de som ambiente, o silêncio so era interrompido pelo barulho dos secadores. A convocação parece ter sido levada a sério, estima-se que quase todos os 60 mil salões que existem na França abraçaram a causa, deixando desligados os radios que alegram a vida das madames que se emperequetam por ali.

O motivo de tanta revolta é um reajuste na taxa de direitos autorais que os salões são obrigados a pagar pelas musicas que eles tocam para os seus clientes, seja de radio ou de CD. O aumento pode chegar a 200% em alguns casos. Um salão que tenha 5 funcionarios por exemplo, pagou em 2009, 24€ à SACEM (empresa que recolhe os direitos de autor na França e redistribui aos criadores - franceses ou estrangeiros). Em 2010 pagou 60€ e em 2011 devera pagar mais de 160€! Mas não são so os salões de cabeleireiro que são obrigados a pagar a tal taxa, qualquer estabelecimento comercial onde exista musica também precisa contribuir. Isso vale para as salas de espera de dentistas, lojas, academias, boates, etc.

A fiscalização é um espetaculo a parte! Academias com até 80 inscritos pagam 99€ por ano. Se tiver até 160, a taxa é de 199€ e acima disso, paga-se 399€ por ano. Trezentos e noventa e nove euros por ano para encher a paciência dos alunos com aquelas musicas ruins? Fala sério! Sou da politica de que cada um deve malhar ouvindo o que gosta, aproveitando bem do seu proprio Ipod, pois se tem uma coisa que os franceses não dominam é arte de montar uma boa playlist. Mas deixemos de lado o mau gosto musical dos franceses e concentremo-nos na fiscalização. Existem uns tiozinhos que vão, por exemplo, em um baile e gravam trechos de cada musica tocada para poder identifica-las mais tarde. Que trabalhinho do cão! Todo mundo la, se divertindo, e o infeliz preocupado com as pilhas que podem acabar antes da hora.

Por essas e outras é que eu gosto tanto de morar na França, onde mais a 'greve da musica' dos cabeleireiros ganharia tanto destaque nas capas dos jornais?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Revolução Francesa, 2010

A França esta em greve. De novo. Ja vi varias desde que cheguei aqui. Mas essa é a mais duradoura e a mais séria. O Presidente Sarkozy quer mexer com a aposentadoria dos franceses. Propõe uma reforma que aumenta de 60 para 62 anos a idade minima para se aposentar. 71% da população francesa é contra. Aposentadoria para eles é tão sagrada quanto vinho, ou mais. Francês é, entre os europeus, o povo que se aposenta mais cedo. Com um dos salarios mais altos também. A expectativa de vida aumentou, por aqui a dos homens é de 80 anos e a das mulheres, de 84. Vive-se mais = trabalha-se mais. Parece logico para mim. Os cofres publicos não conseguem continuar pagando beneficios tão altos. A divida subiu para 80% do PIB. A França pode quebrar em alguns anos, como aconteceu ha pouco com a Grécia. Pode não, vai. Acabou o dinheiro, o que fazer? Mexer aonde? A oposição não faz novas propostas, não encontra a saida. Mas protesta. Evoca a Revolução Francesa, quer cortar a cabeça do rei. Povo no poder. O povo manda na França - ou pelo menos acha que manda. A greve é um direito dos franceses. Todos vão para as ruas. Protestam, reivindicam. Acho lindo! Dai, vira bagunça. Confudem as coisas. Queimam carros, destroem lojas, colocam fogo na escola que se recusa a fazer greve. Sério gente, fogo em escola? Nem no Brasil. A policia, obvio, entra em ação. 196 presos em Lyon ontem. Escolas e universidades bloqueadas. Quem quer estudar, não pode. Jovens se mobilizando para o que mesmo? eles ja não sabem. A democracia da lugar ao vandalismo. O meu direito termina onde começa o seu. Não ensinam isso por aqui não? Refinarias bloqueadas, falta combustivel no pais. Vôos cancelados, trens parados, rodovias fechadas. Um caos. Pego minha câmera e saio para fotografar:









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