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sábado, 28 de maio de 2011

Fête des voisins

Francês, vocês sabem, é um povo fechado que precisa de um empurrãozinho para socializar. Como os prédios daqui não têm salões de festas, piscina, salão de jogos, academia e aquela coisa toda que os prédios no Brasil costumam ter, fica ainda mais dificil encontrar uma desculpa para bater um bom papo com o vizinho. Os raros encontros acontecem no elevador (e o assunto é invariavelmente a temperatura) ou no deposito de lixo, onde o assunto... bem, onde não tem assunto nenhum. Foi por isso que eles, criativos como são, resolveram criar a tal Fête des voisins


A 'Festa dos vizinhos' acontece em toda a França ha 12 anos e tem até data fixa no calendario: sempre na ultima sexta-feira de maio. O proposito é tirar dos seus m2 todos os franceses que não saem da toca nos outros 364 dias do ano para ver se assim as pessoas se aproximam daqueles que moram logo ao lado.


Fiquei meio desconfiada quando vi, no começo da semana, o cartaz perto do elevador avisando sobre o evento. Tinhamos que colocar os nossos nomes ali, confirmando a presença, e escrever também o cada um iria levar. Nos eramos os segundos da lista. E os ultimos também. Até a hora da festa ninguém escreveu mais nada ali. "Puta povo desanimado!", pensei. Mas, que nada! Apareceu um bocado de gente e eu fiquei felizona de descobrir que os meus novos vizinhos são bem legais. Em menos de meia hora todo mundo ja estava se "tutoiando". Explico: A lingua francesa tem essa frescura que eu não domino muito bem, existem duas formas diferentes de tratar as pessoas, o vous e o tu. O vous é mais polido, obrigatorio para se dirigir a alguém que você não conhece ou conhece muito pouco.

Em teoria é tudo muito simples: idosos, pessoas que eu não conheço, chefes e professores eu trato por vous. Com amigos, crianças e pessoas da mesma idade (em situações informais como uma soirée) eu posso usar o tu. Mas na pratica não é tão facil assim. Eu tenho uma dificuldade absurda para saber a partir de que momento eu posso passar do vous para o tu, e para não errar eu "vousvoio" todo mundo. Cada francês tem uma teoria para o assunto. Alguns dizem que o tu é sinal de respeito, outros dizem que é questão de intimidade. Por isso, o  fato de, com apenas 30 minutos de conversa, ver os proprios franceses se "tutoiando" (e olha que tinha gente de todas as idades) é a maior prova de que a festinha foi um sucesso! Ja começamos até a programar um churrasco e nos fizeram prometer que vai ter caipirinha. Não custa nada pôr em pratica a politica da boa vizinhança, pelo menos uma vez ao ano.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Produits de saison

Uma das coisas mais dificeis para mim aqui na França é acompanhar o calendario das frutas e legumes. Minha mãe sempre manteve a geladeira cheia com maçãs, laranjas, maracujas, melões, bananas... o ano todo. Aqui é bem diferente. Não existe a enorme variedade de frutas que temos no Brasil e o que tem so aparece em temporadas. Agora em abril, por exemplo, é a época do kiwi. 

Outra fruta que toma conta das feiras na primavera é o morango, mas como eu sou louca por morangos com leite condensado, acabo não resistindo e comprando pelo menos uma caixinha durante o inverno. O maridão também da as suas escorregadas, mês passado levou melão para o trabalho e foi reprimido pelos colegas: "melão em março? Deve estar meio aguado, né?". Sim, estava. Mas os franceses ja nascem sabendo lidar com essa escassez de frutas, ja o brasileiro precisa de mais tempo para se adaptar. E até que estou indo bem. Durante os 3 meses mais rigorosos do inverno, me entupi de mexerica - uma fruta que eu não consumia muito no Brasil. Quando eu estava começando a gostar da rotina de comer pelo menos duas todos os dias, acabou a temporada e mexerica de novo, so em outubro do ano que vem.

Os franceses fazem muita campanha para incentivar o consumo dos produits de saison (produtos de época) e que sejam produzidos na região: "os morangos amadurecem antes da estação na Espanha? Espere mais um mêszinho e você tera os deliciosos morangos da Alsace (nordeste da França)". Quando você come bananas que têm gosto de agua, você passa a entender melhor esse raciocinio. Por causa do transporte, frutas e legumes importados são mais caros que os produtos locais. Outro bom argumento em favor dos produits de saison é o gosto acentuado que esses alimentos não têm fora das suas temporadas. Sem falar que é mesmo mais saudavel comer produtos que amadurecem no pé e que não precisam da ajuda de agrotoxicos para crescer fora da época nem de conservantes para sobreviver a uma longa viagem. 

Infelizmente, a França não produz todos os alimentos, então os supermercados enchem as suas prateleiras com limão do Brasil, maracuja do Peru, laranja da Espanha, tomate do Marrocos e banana da Martinica. Aqui em casa ja entendemos que consumir os produits de saison é melhor para o meio ambiente, para a nossa saude e claro, para o nosso bolso; So que vez ou outra a saudade bate mais forte e a gente acaba pagando 15 reais por uma manga que veio da Bahia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Superstição de ano novo

Final de ano chegando e você faz o quê? Envia um monte de mensagens desejando um feliz natal e um otimo 2011 a todos os seus amigos, certo? Na França, não. Todas as mensagens que recebemos de franceses até agora foram para desejar um feliz natal e ponto. Ja comentei aqui no blog que eles não desejam "feliz ano novo" antes do novo ano realmente começar. Pura superstição. Nessas horas que eu vejo como nos brasileiros somos preguiçosos praticos. Dois coelhos e uma cajadada so: "Um feliz natal para você e para toda a sua familia e que 2011 seja um ano repleto de paz e prosperidade!". Assim nos livramos da trabalheira de felicitar cada um dos nossos queridos duas vezes no intervalo de uma semana. Mais logico, não?

Parece que não. Um amigo francês me ligou no natal e eu, sabendo que não o veria até o ano que vem, ja engatei um "feliz natal pra você também e um 2011 maravilhoso!", mas ele ficou p. da vida! "Ta de sacanagem né, Mirelle? Não se deseja bonne année antes do dia 1° de janeiro, da azar!". Ai, gente, eu ri. Na verdade eu ja sabia da paranoia deles em relação a isso porque o Léo tinha me contado que no escritorio onde ele trabalha é sempre a mesma coisa. O final do ano é um prato cheio para os franceses reclamarem dos costumes alheios. Os funcionarios das fabricas do Brasil e de Portugal mandam os desejos de boas festas e feliz ano novo em um so email e então os franceses bufam: "Onde ja se viu isso? Desejar feliz ano novo se o ano ainda nem acabou?!". Sério, eles bufam! Mas diz se não é automatico? O 'feliz ano novo' vem naturalmente colado ao 'feliz natal', como se fosse uma expressão so. Esse meu amigo disse que nem mesmo se você encontrar alguém às 20h do dia 31 de dezembro você deve desejar feliz ano novo, no maximo um "bom restinho de fim de ano", mas "bonne année" mesmo so a partir do dia 1°!

Se os desejos de meilleurs vœux (melhores votos) têm data para começar, também têm para acabar. Os franceses costumam cumprimentar os amigos até o final de janeiro. Se encontrar um colega la pelo dia 28, ele vai dizer: "Como ainda não nos vimos esse ano, gostaria de te desejar um feliz ano novo". No começo desse ano fiquei com cara de paisagem quando um retardatario gentil cavalheiro veio me desejar os meilleurs vœux pertinho do carnaval começar. Nessas horas os estrangeiros passam por sem educação porque eu, por exemplo, so me lembro de cumprimentar as pessoas até ali pelo dia 5, depois disso a vida segue e ja nem me dou conta de que o ano virou.

Mas ja que o blog não é feito para francês ler, fica aqui o meu desejo de um SUPER 2011 para todos vocês que me acompanharam em 2010!!! Feliz ano novo, bonne année!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Queijos franceses - Mont d'Or

Diz a lenda que francês tem 365 tipos de queijos, um para cada dia do ano. Ou seja, não faltam opções para substituir o meu preferido: o queijo minas, que eles não fazem. No café da manhã, o Léo come fatias de camembert com pão, enquanto eu prefiro o tradicional queijo quente com mozzarella mesmo. Nas saladas usamos o emmenthal e nas sobremesas, o saint marcellin. Toda vez que rola uma soirée em casa, o Léo corre para o supermercado e enche a mesa de comté, tomme de Savoie e de buche de chèvre, ideais para serem servidos como aperitivo.

Cada região da França produz tipos especificos de queijos: o brie de Melun é feito na região parisiense, na Corsega se produz o niolo e o roquefort vem do Massivo Central, por exemplo. São dezenas de queijos de vaca, de ovelha e de cabra para agradar todo tipo de paladar. Dificil é escolher entre eles, dai acabamos comprando sempre os mesmos aqui pra casa. Mas dia desses, a Dé também falou sobre queijos no blog dela e comentou sobre o mont d'or, um queijo fabricado no Jura (uma região que faz divisa com a Suiça e a Alemanha), que ela achou delicioso. Fiquei curiosa e prometi experimentar. Convidei nossos compadres para se aventurarem no test-drive com a gente e fiz como a Dé ensinou: levei a caixinha ao forno e, ja derretido, comemos o queijo a colheradas com batatas e charcuteries (frios como salames, presuntos, etc.). Foi uma surpresa agradavel, porque ele é realmente muito gostoso. O unico problema é que ele fede na geladeira. Tipo, muito!



Dizem, alias, que casa de francês fede não por falta de limpeza, mas por causa dos queijos que ficam na geladeira. Eh bem possivel. O mont d'or ficou 3 dias na minha e deixou a casa toda com cheiro de comida estragada. Ele pertence ao grupo dos queijos moles de crosta dura, que são os mais fortes (no gosto e no cheiro) e os preferidos dos franceses. No começo eu estranhava quando algum amigo abria a geladeira e o cheiro forte tomava conta do ambiente. Se tiver oportunidade, faça o teste! Abra a geladeira de um francês e veja se você não vai encontrar um tipo de queijo la dentro, no minimo! A paixão é tamanha que eles so se sentem vivos se tiver (além de pão e agua) queijos servidos em todas as suas refeições - do mais informal piquenique ao mais requintado jantar, como bem escreveu Ricardo Corrêa Coelho no livro "Os Franceses", que o blog esta sorteando.





Atualizando: Quem ganhou o livro "Os franceses", de Ricardo Corrêa Coelho, foi a Raissa Ribeiro, de Natal - RN. Parabéns Raissa! O livro é uma delicia, tenho certeza que você vai gostar. A todos os outros que participaram do sorteio, obrigada!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Piquenique à francesa

Dizem que estamos no outono. Dizem, não acredito. Ja é quase novembro e as folhas insistem em continuar presas aos galhos das arvores, verdinhas que so vendo! Nessa mesma época do ano passado, o vento brincava mais intensamente com as folhas ressecadas que se juntavam aos montes pelo chão. Dessa vez o inverno passou a perna no outono e chegou antes, deixando os dias mais gelados e amenizando as cores amareladas e envelhecidas da minha estação preferida. Não tem jeito, é preciso se conformar. E a melhor maneira de se despedir do sol é permitir que ele te toque enquanto ainda tem forças. Por isso eu reuni os amigos no parque para um piquenique - o ultimo do ano com toda certeza.

O piquenique é uma atividade super importante dentro da cultura francesa. Alias, os franceses passam muito tempo fora de casa. Em cidades grandes como Lyon e Paris é mais facil perceber isso. Como os apartamentos são muito pequenos, qualquer motivo é desculpa para descer as escadas e mudar de ambiente. Francês adora ler na biblioteca, tomar café no café da esquina, praticar esportes nas areas construidas pela prefeitura. Os espaços publicos são uma extensão de suas residências, principalmente para os parisienses. Quando você estiver passeando por Paris, entre em um café e repare na quantidade de pessoas lendo tranquilamente ou navegando na internet, sem pressa alguma de se levantar.

Uma amiga francesa vai à biblioteca todas as tardes para estudar ou simplesmente para ler um livro, principalmente no inverno. Não so pelo ambiente propicio à leitura, mas também para evitar gastos com os aquecedores na casa dela - ja que essa é uma despesa bastante alta por aqui. Não sei se por ser brasileira ou por ser preguiçosa mesmo, eu acabo ficando em casa quando não tenho nada para fazer na rua. Ainda não tenho coragem de me vestir e enfrentar a neve so para roubar aquecimento alheio. Mas o habito de aproveitar os parques durante o verão, eu ja adquiri!

No começo da primavera, quando o frio começa a ir embora, os parques ficam lotados. Digo, sem exagero, que é dificil encontrar espaço para estender uma tolha, deitar e ler um livro. Em todos os bairros de Lyon existem pequenos parques, onde os pais levam as crianças para brincar. Não é nada comum por aqui que os prédios tenham areas de lazer como temos no Brasil (com piscinas, quadras, salões de festas, academias, brinquedoteca...), por isso os parques são como os jardins dos franceses. A melhor maneira de curti-los, é fazendo piquenique.

Dizem que a pratica começou depois da Revolução Francesa, quando os parques e florestas que cercavam os castelos reais foram abertos ao publico. Hoje ela é tão comum, que inventaram até o verbo piquiniquer. Franceses ricos piquinicam, franceses de classe média piquinicam, e claro, os pobres também. Bastam pequenas porções de comida para dividir com os amigos, queijos, vinhos, pães, uma grande toalha e disposição para ficar horas sentado no chão.


Quadro "Le Déjeuner sur l'herbe" (Almoço sobre a relva), de Claud Monet, que mostra um piquenique tipico burguês do século XIX.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Feliz Ano Novo!

Não, eu não estou antecipando os fatos, o ano realmente acabou de começar para os franceses. Claro que eles brindam a noite de 31 de dezembro, mas o Ano Novo deles começa mesmo é em setembro. Quando um francês diz que no ano que vem vai começar a frequentar uma academia ou que a partir do proximo ano vai parar de fumar, ele se refere a setembro, jamais a janeiro, como nos. É mais ou menos assim em toda a Europa. A Glenda comentou no blog dela que foi comprar uma agenda e ficou surpresa quando viu que também na Espanha as agendas e calendarios começam por setembro e não pelo primeiro dia de janeiro.

Ontem fui à reunião de boas vindas do meu curso de francês e a senhora que apresentou o programa veio me elogiar pelas otimas notas que recebi no ano passado. Ano passado eu ainda estava no Brasil, minha senhora! Demorou alguns segundos para entender que, na verdade, ela se referia ao semestre passado. Ainda me enrolo quando vejo uma noticia ou escuto alguém falar de algo que aconteceu no "ano passado". Nnunca sei se foi realmente no ano de 2009 ou no primeiro semestre de 2010.

Também tenho dificuldades para me fazer entender quando preciso situar o tempo. Semana passada fomos almoçar no Insituto Paul Bocuse e, conversando com um cara que trabalha la, eu disse que no ano que vem  também vou estudar naquela escola. "Então você ja começa nas proximas semanas?", perguntou o rapaz. "Não querido, no ano quem vem - começo de 2011". Como me referir ao ano que vem se não posso chama-lo de "ano que vem"? Ainda não me acostumei com essa coisa de primeiro semestre de 2011, segundo semestre de 2010...

A culpa é do sol, tudo gira em torno dele. Não da para estudar e trabalhar nos dois meses mais quentes do ano. Como o sol não da muito as caras por aqui, quando ele aparece é preciso aproveita-lo intensamente. Por isso, os meses de julho e agosto são, definitivamente, os mais esperados e amados pelos franceses e o ano escolar termina no final de junho e so recomeça em setembro. Que graça teria se as férias aqui fossem em dezembro e janeiro, como no Brasil? Para onde viajar no inverno rigoroso, com temperaturas tão negativas? Passear como, se as ruas ficam cobertas de neve? No Brasil estamos acostumados a ter sol o ano todo, então não fazemos dele uma estrela tão importante, como fazem os europeus. Achei super engraçado uma amiga escrever que depois das férias de verão, estava preparada para a rentrée.

Rentrée é como eles chamam esse comecinho de setembro, quando a festa acaba e a vida entra nos eixos novamente. A expressão, que significa retorno/recomeço, é usada quase sempre em tom melancolico: "E ai, pronto para a rentrée?". Traduzindo: pronto para as aulas chatas, depois de 60 dias curtindo o sol? Pronto para encarar o trabalho estressante, depois de viagens tão legais? Pronto para tirar os casacos do armario, depois de ir ao parque todo domingo fazer pic-nic? Minha amiga francesa esta certa, depois de bronzear a pele e lavar a alma no mar, fica bem mais facil começar tudo de novo.

domingo, 29 de agosto de 2010

Nem tão estranhos assim

Eles são assim mesmo: colecionam cupons de descontos, preferem tênis ao futebol, não gostam de muito sal na comida, comem queijos como sobremesa. Cheios de manias que me causam estranhamento (como ja listei aqui), mas também com alguns habitos interessantes, que facilitam a vida da gente. Alguns desses habitos ja estão totalmente inseridos no meu dia-a-dia:

1 - Carregar minha propria sacola para o supermercado. Tenho sempre um saco plastico dobrado dentro da bolsa e o Léo carrega uma sacola reciclavel maior no carro. Tudo isso porque as sacolas plasticas que estamos acostumados a receber aos montes nos supermercados no Brasil, são proibidas na França. Não é nada incomum ver pessoas saindo dos mercados com melões e pacotes de papel higiênico nas mãos porque esqueceram suas sacolinhas e não querem gastar 10 centavos para comprar uma nova. O pessoal aqui ja entendeu que o consumo deliberado das sacolinhas prejudica a natureza e por isso colabora, carregando cada um a sua propria sacola plastica, de pano ou carrinhos de feira para levar as compras para casa.

2 - Beber agua de torneira. A agua da pia aqui é potavel e todos os restaurantes colocam uma garrafa dessa agua na sua mesa assim que você se senta. No começo evitei, mas acabei cedendo e me acostumando com o gosto (sim, tem gosto!). Ja que não bebo alcool e os sucos naturais são rarissimos por aqui, o jeito é abusar da agua de torneira nas refeições. O bom é que, sendo de graça, a conta fica mais barata.

3 - Bricolage. Essa é uma mania nacional que começa muito cedo aqui na França. Os pais costumam presentear os filhos com jogos de ferramentas para construir coisas, na esperança de que quando adultos eles consigam trocar os fios elétricos de casa, pregar prateleiras, resolver os problemas de encanamento... Como mão-de-obra por aqui é muito cara, todo mundo se vira sozinho com os reparos de casa. O Léo e eu entramos nessa onda, somos nos que fazemos todo e qualquer tipo de serviço braçal aqui no nosso cafofo. Mentira, so o Léo.

4 -
Ler o tempo todo. Basta andar de metrô para ver que a leitura é o passatempo preferido dos franceses. No Brasil eu costumava curtir o ocio de uma maneira menos intelectual, mas por influência do meio acabei me acostumando a ter sempre um livro ou jornal por perto para me entreter. Nas estações de metrô, alguns jornais são distribuidos de graça pela manhã, e para encontrar livros bons e baratos basta entrar em um dos inumeros sebos da cidade.


5 - Olhar a previsão do tempo. Meteorologia esta para os franceses assim como o futebol esta para nos, brasileiros. Ninguém sai de casa sem dar uma espiada em algum site ou assistir à previsão na TV. Quando acordo faço como todos os franceses, olho logo para o termômetro para saber quantos graus faz la fora. Sério, estou viciada! Pelo menos o assunto nos encontros de padaria e elevador estão garantidos, ja que francês, quando não tem intimidade com alguém, so fala sobre o tempo. E não pense que é superficial, eles são capazes de elaborar teses complexas sobre o assunto. Eh como encontrar uma Rosana Jatoba em cada esquina.

6 - Tirar os sapatos ao entrar em casa. Na minha casa nunca teve isso. Os mesmos calçados que perambulavam contentes pelas ruas, transitavam imundos dentro de casa. Também não me lembro de ter que tirar os sapatos para entrar na casa de amigos no Brasil. Aqui é quase lei, ninguém anda de sapato dentro de casa. Hoje me parece tão mais logico e higiênico, que não sei como não fazia isso antes.

7 - Passar os domingos no parque. Morei mais de dez anos em São Paulo e so fui ao Parque do Ibirapuera uma unica vez. Na terra da garoa, domingão é dia sagrado de ir ao shopping. Aqui, o comérico todo fecha as portas e a melhor opção é se jogar na grama de um parque qualquer. Dificil é achar lugar para estender a toalha, ja que todo mundo tem a mesma ideia. Mas é uma delicia, muito mais agradavel que ficar olhando vitrines em corredores fechados enquanto o sol brilha la fora.

8 - Separar o lixo. A pratica, ainda pouco habitual no Brasil, é super comum por aqui. A cidade é toda preparada e os moradores são muito conscientes sobre esse dever de cidadão. Na nossa cozinha temos dois lixos, um para os restos de comida e outro para os reciclaveis: papel, latas, garrafas plasticas. Nos prédios também existem lugares especificos para os lixos, depois passam os caminhões preparados para esse tipo de coleta. A tal historia do "se cada um fizer a sua parte" nesse caso funciona bem.

9 - Comer menos, mais vezes ao dia. Abundância de comida é uma coisa que não se encontra nos pratos franceses, fato. Eles estão acostumados às pequenas porções, que somadas à entrada + sobremesa até que enche a barriga por algumas horas. Depois, comem uma fruta ou tomam um iogurte para esperar a proxima refeição. O jeito certo é esse, dizem os especialistas. Comer menos quantidade, mais vezes ao dia. Por isso o povo aqui é magro e saudavel. E como eu sonho em ser como eles, estou tentando deixar de lado a montanha de arroz e feijão que sempre esteve presente nos meus pratos.

10 - Deixar as ligações cairem na secretaria. O povo aqui não se apavora para atender telefone não, deixa cair na caixa postal. A ligação para ouvir os recados é gratuita, então por que atender aquele chato que esta ligando na hora errada? Não lembro de ser tão desencanada assim com telefone no Brasil. Se eu esquecia o aparelho em casa, voltava correndo para buscar. Aqui as pessoas têm o habito de chegar em casa e colocar a secretaria para tocar. O mesmo vale para celulares, é muito natural as pessoas não atenderem porque estão ocupadas ou sem vontade mesmo. Quem liga deixa recado e depois a outra pessoa retorna, sem precisar inventar desculpas por não ter atendido mais cedo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mão de vaca

Desperdicio é uma palavra que não combina com o estilo de vida francês, tô pra ver povo mais mão fechada! Eles reaproveitam tudo o que da para reaproveitar. Bebem agua da torneira, reciclam moveis, roupas, lixo. Lição que tenho tentado praticar aqui em casa sempre que da. Uma das vertentes desse consumo consciente são os descontos. Quando vamos ao supermercado por exemplo, recebemos um cupom que da um desconto proporcional para a proxima compra. O Léo guarda o papelzinho como se fosse ouro. No Brasil provavelmente eu jogaria fora, ja que não costumava dar muito valor aos poucos centavos oferecidos para garantir o retorno do cliente. Aqui, as moedas pequenas são tão valiosas quanto as notas grandes. Nunca vi um caixa devolver 3 centavos em bala, como acontece muito na terrinha.

Outro dia vi na TV uma propaganda de uma bolacha que devolvia integralmente o valor da compra se o consumidor mandasse pelo correio a embalagem com o codigo de barras e fiquei intrigada com o funcionamento do esquema. Claro que as empresas francesas não são tão caridosas assim, é so uma estratégia de marketing para atrair novos clientes. O famoso plantar para colher depois, sabe? Aqui na França, os consumidores sempre procuram por grandes ofertas nas prateleiras e ainda que tenham suas marcas favoritas, não pensam duas vezes antes de levar o produto concorrente se ele oferecer um desconto que o tradicional não da. Não é raro ver familias humildes saindo dos supermercados com os carrinhos cheios, graças à esse tipo de promoção - que da trabalho, mas compensa.

Também existem sites como este aqui, que divulgam promoções imperdiveis de varios tipos de produtos: impressora, iogurte, cereal, sabão em po, entre outros. São varias maneiras de consumir gastando pouco ou até mesmo, nadica de nada. Além das marcas que reembolsam 100% o valor (como no caso da bolacha), ha as que oferecem cupons para levar o mesmo produto de graça na proxima compra, as que garantem a satisfação do cliente ou o dinheiro de volta (basta escrever dizendo que não gostou) e aquelas que oferecem o produto totalmente gratis, so para você experimentar. No Brasil, o mais comum são os famosos "leve 2, pague 1" que alivia, mas não diminui tanto assim a conta no final do mês.

Francês não tem vergonha de juntar moedas de um centavo, de usar cupons de desconto nem de procurar por lojas com ofertas interessantes na internet, tudo isso é muito normal aqui. Nessa busca por preços baixos, encontrei um outro tipo de serviço. Este site propõe diariamente ofertas imperdiveis para seus cadastrados, os descontos chegam a 90%. Se a oferta do dia interessar, é so fazer a compra e aguardar para ver se a promoção sera validada. Para ser validada, é preciso que um numero x de pessoas também compre a mesma oferta. Se o numero for insuficiente, a oferta é cancelada e a cobrança no cartão não é feita. São sites de compras coletivas que oferecem tudo quanto é tipo de coisa: pacotes de massagens, jantares, entradas mais baratas para cinema, shows, teatro, etc. Esse tipo de compra pode ser feita no mundo todo, inclusive no Brasil, basta procurar o dominio de cada pais.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O que vestir no verão francês

Estou em plena crise dos 30 e para esquecer dela, fui às compras. Quase nunca entro em lojas pequenas aqui na França, meu francês capenga me deixa mais à vontade fuçando araras de lojas grandes como Zara ou H&M. Mas nesse dia eu entrei, é que a bata linda da vitrine insistia em chamar pelo meu nome, dai ja viu né?

A vendedora até que era simpatica (no limite do que uma vendedora francesa consegue ser) e ia me atendendo bem até eu sair do provador usando a tal bata como vestido. "Mas isso ai é uma blusa e não um vestido", disse a moça, aparentemente chocada. Ora bolas, se o cumprimento vai até o meu joelho, então é vestido! Quando ela soube que eu vinha do Brasil, a coisa piorou: "Ahhhh ta, la vocês usam roupas bem curtas né? Mas aqui na França não é assim não".

Tadinha, passou umas três vezes na fila da mentira a pobre moça. No verão, as francesas usam roupas muuuito mais curtas do que as nossas. As minhas mini-saias passam vergonha quando cruzam suas colegas mini-saias-francesas pelas ruas. Mas elas podem. Aquelas pernas enormes e finas ficam ainda mais lindas de mini. Sem falar que nos outros oito meses do ano, elas ficam escondidas embaixo de meias grossas e calças escuras por causa do frio, então estão certas de abusar. E olha como abusam:

Fotos: Mirelle, em momento paparazzi pelas ruas

Mas não pense que so porque os shorts são curtos, que a pouca vergonha é liberada não! Para desfilar com um dos nossos biquinis brasileiros por aqui, tem que ter muita coragem! Apesar do topless ser comum nas praias, praças e parques (pois é gente, basta o sol aparecer e elas vão logo desamarrando a parte de cima dos biquinis em qualquer canto, sem pudor algum), a parte de baixo é grande - enorme alias. Tipo cirola de vó! E o nosso fio dental ainda não é visto com bons olhos por aqui.

Outra caracteristica do verão brasileiro que as francesas não adotam de jeito nenhum é a barriga de fora. Nada de blusinhas curtas com shorts de cintura baixa, tipo piriguete. As roupas daqui tem um corte maior e chegam, quase sempre, até o umbigo. Barriguinhass acanhadas, vejam so:

Fotos: Blog da Julia Petit

Anotem as dicas meninas e quando forem arrumar as malas para aproveitar o verão francês, não esqueçam as roupas bem curtinhas - aquelas que no Brasil a gente so tem coragem de usar para ir à praia.



*Para aumentar, clique nas fotos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Francês é um povo estranho, ponto.

Eles têm as esquisitices deles, nos temos as nossas. Geralmente da para fazer uma mistura de tudo e levar a vidinha numa boa, mas tem coisas que me ainda causam estranhamento:

1 - Não tem numeros nos apartamentos. Pois é, eles ainda não se tocaram que trocar os sobrenomes por numeros nas caixas dos correios dos apartamentos é mais pratico. Como não existem portarias nem porteiros por aqui, o pobre do moço do correio é quem fica com o trabalho de distribuir as correspondências nas caixas dos moradores. Dia desses encontrei o carteiro quando estava entrando no meu prédio e fiquei morrendo de pena quando o vi perdidão em meio a tantos envelopes. Fui logo perguntando se não seria mais facil se tivessem numeros no lugar dos sobrenomes. Com um ar de "como não pensamos nisso antes?", ele respondeu que sim. Visitante: 1, donos da casa: 0.

2 - Apéro - O happy hour do francês pode ser meio estranho se, ao sair do trabalho, seu colega te convidar para ir à casa dele fazer um apéro (tomar alguma coisa antes do jantar). Um encontro que não dura mais do que 2 horas e que pode terminar com o seu anfitrião te convidando a ir embora porque ele vai jantar com a familia. Indelicadeza? Para eles é super normal.

3 - Assoar o nariz sem cerimônia. Aqui é assim: deu vontade, assoa o nariz. Com força mesmo, tipo colocando o mundo pra fora! No cinema, no restaurante, no ônibus, em programas ao vivo de televisão. Tão comum quanto respirar, é ter um lenço para assoar o nariz no meio da rua. Tentei explicar para um amigo francês, que esta de viagem marcada para o Brasil, que no meu pais ele não deve fazer isso em publico, senão todos vão olhar com um certo nojinho. Mas ele não entendeu muito bem. Assoar o nariz é tão natural por aqui que até o Léo faz e nem percebe.

*Atualizando em Julho/2011: Um ano e meio que estou na França e confesso que eu também ja adquiri o habito de assoar o nariz em qualquer lugar. Ops!

4 - Comprar frios por fatias. Eles são vendidos nos supermercados por fatias, em pacotes com duas, quatro ou oito. E elas são mais grossas do que as que encontramos nas padarias do Brasil. Eu, que sempe comprei frios pelo peso, estou tendo que me acostumar com a matematica das fatias. Sem falar na falta que eu sinto das minhas fatias beeeem fininhas de mortadela, cortadas na hora.

5 - Não ceder lugar para os idosos. Tudo bem que os velhinhos franceses são muito mais atléticos e saudaveis que os nossos. Até acho bacana a população tratar a terceira idade de igual para igual, incentivando-os a se manterem ativos até quase o fim da vida. Mas não me conformo ao ver os jovens franceses não cederem lugar para os idosos nos ônibus ou nas filas. Acho que nunca fiz uma viagem inteira sentada, porque quando entra um velhinho eu dou o meu lugar. E como o que mais tem na França é velho...

6 - Preferir abajur à luminaria. Se você ja esteve na França ou ja viu algum filme francês, com certeza reparou que as luzes nas casas e apartamentos não são claras como as nossas. Eles preferem luz fraca e amarelada, que da um clima mais intimista. Ja eu, prefiro luzes brancas e fortes, senão fico com dor de cabeça. Nossa sala é enorme, com espaço para 3 ambientes e tem um unico ponto de luz no teto. Na casa da mãe das crianças que eu cuidava é ainda pior, simplesmente não ha nenhum buraco no teto, nem fiação nos quartos e na sala. Apenas um abajur em cada cômodo para iluminar. Da para imaginar uma casa sem lâmpadas no teto?

7 - Passar as férias sempre nos mesmos lugares. A França é realmente especial e o que não falta é cidade bonita para visitar. Da para esquiar no inverno, ir para a praia no verão, para as montanhas no outono e para o campo na primavera. Mas passar todas as férias na mesma casa de praia da familia ou as festas de fim de ano na casa de campo do avô, eu não entendo. Francês é o povo europeu que menos viaja para fora do pais. Isso porque tem vizinhos como a Espanha, a Alemanha e a Italia. Sem falar que é possivel viajar pela Europa toda de avião pagando menos de 15€ pela passagem.

8 - Desejar 'feliz ano novo' até o fim de janeiro. Francês se sente na obrigação de desejar votos de um bom ano novo a todos que conhece. E não so na noite do dia 31. Se você encontrar um amigo la pelo dia 20 de janeiro, ele vai lembrar de te dar os 'melhores votos' para o ano que ja começou. Acho super estranho falar com alguém ao telefone no final do mês e receber esse tipo de cumprimento. Mas atenção: so vale para janeiro, fevereiro ja é um pouco forçado demais.

9 - Festas com horario para começar e para terminar. Tai outra coisa que eu nunca tinha visto no Brasil: horario para a festança acabar. Por aqui é muito comum receber um convite especificando o horario de duração de uma comemoração, seja ela um aniversario de criança ou uma noitada na casa de um amigo. Para mim, festa so termina quando o mais bêbado da turma pega no sono, mas os franceses costumam deixar bem claro os horarios do inicio e do fim da festança.

10 - Não tirar o esmalte das unhas. A maior diferença entre uma mulher francesa e uma brasileira (esteticamente falando) é o cuidado com as unhas. No Brasil damos muito mais importância ao assunto. Além de não tirarem as cuticulas e de preferirem o formado mais arredondado, as francesas simplesmente ignoram a existência do removedor de esmaltes. Depois que reparei isso, fiquei viciada em observar as unhas da mulherada e é sempre a mesma coisa: compridas nos pés, descascando nas mãos ou esmalte velho até a metade dos 20 dedos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Eu só preciso de uma

Quando cheguei aqui, não entendia muito bem porque os apartamentos possuem, quase todos, duas cubas nas pias das cozinhas. O Léo, que ja esta em Lyon ha sete anos, ficou surpreso com a explicação que encontrei no livro Os Franceses, de Ricardo Corrêa Coelho: "Em um lar francês onde não exista uma maquina de lavar louças, os copos, pratos e panelas são lavados conforme o tradicional sistema de bacias, lavar em agua corrente seria um desperdicio inadmissivel". Da mesma maneira que fazem as mulheres do nosso nordeste em época de seca, não por consciência ecologica, mas por necessidade mesmo.

"As duas cubas servem como bacias, em uma mergulha-se a louça suja numa mistura de agua com detergente e na outra, enxagua-se a louça suja em agua pura até que essa agua do enxague comece a ficar suja, momento onde se acrescenta detergente a essa agua e passa-se a mergulhar a louça suja, esvaziando-se a outra cuba e enchendo-a de agua limpa, a qual a partir de então fara as vezes da bacia de enxague. A operação é repetida até que toda a louça tenha sido lavada".

O plongeur* aqui de casa é o Léo, ja que não temos maquina de lavar louças. Durante um raro momento de insanidade do meu marido, ele me propôs o irrecusavel: se eu fizesse as unhas todas as semanas, ele se ocuparia da louça suja. Ir ao salão aqui é tipo missão impossivel, além de caro, as manicures não tiram as cuticulas, então fica uma merda, com o perdão da palavra. Eu levo quase duas horas para deixar as minhas unhas impecaveis, dai vem o calcario da agua e descasca tudo em uma unica lavada.

O Léo então, com pena de ver a minha dificil relação com alicates e afins não dar muitos resultados, optou pelo bem estar da sua esposa. Pois é, gente, meu marido é tipo assim... um sonho! Enquanto uns influenciam suas mulheres a andarem desleixadas por ai, ele faz questão de me ver sempre impecavel - embora eu nunca o esteja de fato. E ja que ele é o responsavel pela limpeza dos pratos aqui em casa, sugeri que experimentasse o sistema francês descrito acima. Mas de cara feia, ele recusou.

Se não conseguimos abrir mão das duas duchas diarias nem de lavar a louça em agua corrente (so para o enxague, enquanto ele ensaboa a torneira fica fechada, isso reduz em 70% o consumo de agua), com a limpeza da casa foi o contrario, tivemos que entrar no esquema francês. Acontece que aqui não existem ralos no chão, por isso não se usa agua para lavar banheiros nem cozinhas. Um pano umido com desinfetante é o modo mais comum de limpar essas partes das residências francesas. Nos quartos e sala, o aspirador é quem faz o serviço, depois passamos um produto de limpeza para dar brilho e voilà!


*Plongeur - O cara que lava os pratos nos restaurantes.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Por que francês não toma banho?

O consumo de agua por aqui é tão restrito que para qualquer francês o que nos brasileiros fazemos com ela é, no minimo, idiota. Como a higiene esta diretamente ligada ao uso da agua, fica mais facil entender porque o francês carrega a fama de sujinho se entendermos primeiro o valor que a agua tem para eles.

Ha não muitas décadas atras, a agua era um bem bastante escasso e nem todos os andares dos prédios eram servidos por agua encanada, que normalmente so chegava até o segundo andar - onde viviam os mais ricos. Os que moravam la para cima, não so tinham que subir mais lances de escadas, como também precisavam descer para buscar agua em fontes publicas ou pagar pelos serviços dos entregadores do liquido precioso a domicilio. Assumo que se eu precisasse fazer isso todos os dias, talvez reduzisse meu numero de banhos a um... por mês.

Nesse quadro de escassez, ter banheiros nas residências era um luxo inimaginavel e descabido, até porque o banho não fazia parte dos habitos dos franceses. Pouquissimas residências tinham sequer banheiras, muito menos banheiros. Até hoje é muito comum encontrar prédios antigos com um unico vaso sanitario que é compartilhado por mais de um apartamento. Normalmente, ele se encontra estrategicamente junto à escada entre dois pavimentos, servindo aos habitantes do andar de cima e aos de baixo.

Se manter limpo hoje em dia ja não é tão dificil, afinal a agua chega limpinha (e cheia de calcario!) em todas as residências, de ricos e pobres. Mas por causa do conceito diferente que o francês tem de banho, os mais tradicionais se recusam a instalar duchas em suas casas. Explico.

O francês acha que banho é o que se toma na banheira e que chuveiro é uma invenção americana que não substitui o banho, portanto não ha banho sem banheira. Um chuveiro pode ser instalado em qualquer lugar da casa (e não é raro encontrar imoveis antigos com chuveiros na cozinha e até no quarto) para se tomar uma ducha, mas jamais um banho. Ou seja, para um francês tipico, eu jamais tinha tomado um banho na vida até chegar na França, ja que a primeira vez que tive banheira em casa foi aqui. Viu como os fatos podem mudar de acordo com o ponto de vista?

Como o banho (aquele de banheira) é para os franceses uma coisa muito especial, ele não pode ser diario. Afinal, encher uma banheira e mergulhar o corpo nela demanda tempo, dinheiro e dedicação, o que não pode ser feito todos os dias. O que eles fazem diariamente é a sua "toilette", o que nos chamamos de banho de gato. Claro que muitos tomam uma ducha, mas não é a regra entre os mais idosos e todos os dias, religiosamente, o francês tipico faz a sua toilette matinal. Enche a pia de agua quente e com uma luvinha umedecida e ensaboada, higieniza seu corpo de cima abaixo.

Essas luvas em francês se chamam "gants de toilette" e são tão comuns e necessarias à higiene quanto o sabonete ou o papel higienico. Eu não entendia muito bem a função dessas toalhinhas, ao meu ver um pouco nojentas, dispostas em todas as prateleiras juntas aos jogos de toalhas que compramos por aqui. Mas parece que receber um hospede em casa sem lhe oferecer sua propria gant de toilette junto às toalhas de banho e de mão a que estamos acostumados, seria uma grosseria tão grande como lhe dar um par de lençois sem fronha.

Provida de todas essas informações e certa de que os habitos atuais de uma sociedade possuem raizes em costumes de antigamente, passei a entender melhor a função da toalhinha, o amor pelas banheiras e a birra contra os chuveiros elétricos. Ao mesmo tempo, estou certa de que os povos evoluem e de acordo com as necessidades do seu proprio tempo, devem se adaptar para viver bem uns com os outros. Entre banhos longos em banheiras imensas e higienização com toalhinha umedecida, uma ducha (rapida, para não gastar muito) me parece a solução ideal. Dificil é convencer um francês tradicional de que uma ideia que surgiu longe do seu casulo hexagonal, é a melhor a ser seguida.


*Informações tiradas do livro "Os Franceses", de Ricardo Corrêa Coelho.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Liberdade, infidelidade, fraternidade

Mês passado a França estava em polvorosa por causa de uma suposta traição da primeira-dama, Carla Bruni. Seu marido, o presidente Sarkozy, que não é um dos caras mais santos do mundo, também teria pulado a cerca. A noticia foi capa de muitas revistas e jornais do pais. Carla Bruni não é muito bem quista pelo povo francês, os conservadores de plantão acham um absurdo a mulher do presidente ser atriz, cantora, sexy e tarada.

Sim, Carla possui uma bela lista de conquistas amorosas. Entre os muitos que assumidamente ja foram para a cama com ela, esta Jean-Paul Enthoven, de 61 anos. Antes de conhecer o atual presidente da França, Carla se envolveu seriamente com este senhor, quase 20 anos mais velho que ela. Mas o caso foi perdendo a graça e ela decidiu que queria se divertir com outro. Para manter as coisas entre familia, escolheu Raphaël Enthoven, filho de Jean. O rapaz era casado e abandonou a mulher para ficar com Carla, logo eles tiveram um filho. Logo se separaram. O filho de Carla então, é neto do ex-namorado dela. Com um curriculo desses, fica dificil alegar inocência.

Acontece que francês além de reclamão, é também um pouco hipocrita. A mesma nação que implica com a pobre da moça so porque ela andou se divertindo por ai, é também conhecida pela infidelidade conjugal. Diz a lenda que francês é o povo que mais pula a cerca no mundo. Um estudo feito no ano passado mostra que 40% dos franceses traem ou ja trairam. O mesmo estudo alerta ainda para o perigo que mora logo ao lado, quase a metade das traições ocorrem no circulo de amigos. E a grande maioria so considera traição quando o parceiro(a) descobre. "O importante não é ser fiel, é acreditar que o outro é". Eu, que sou muito bem casada com um brasileiro, me divirto com a astucia francesa!

Para acabar com o problema de alguns françolas que, assim como o Léo, so tem amigas feias, o primeiro site de relacionamentos extra conjugais a ser criado, abriu uma conta na França. O gleeden.fr funciona como o Orkut, mas ao invés de amigos, você encontrara amantes. São milhares de perfis disponiveis a espera de um contato. Pessoas insatisfeitas com seus casamentos/namoros em busca de sexo casual despertam o interesse de grandes investidores. Os donos do site inaugurado ha poucos meses, ja contabilizam os lucros.

Para ter acesso, é preciso se cadastrar. Quanto mais informações você colocar, mais chances de encontrar outro pilantra querendo dar uma escapadinha também. Para um primeiro contato, os homens pagam uma taxa pequena. Antes de marcar um encontro cara a cara, os dois interessados podem trocar mensagens e bater papo no chat o tempo que acharem necessario.

Deve ser engraçado se inscrever nesse treco: "brasileira, olhos e cabelos castanhos, casada ha um mês, procura um homem caliente. Estou disponivel as terças e quartas, das 14h as 16h". O mais incrivel é que depois do encontro, cada um pode dar notas para seus amantes. Uma referênciazinha basica para os que chegarem depois. Afinal, francês mantém a classe até em redes sociais de putaria.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Como irritar um francês

Vi no blog da Anita uma lista de como irritar um brasileiro, feita por uma americana que passou um tempo no Brasil. Inspirada, fui logo listando as maneiras classicas de tirar um francês do sério:

1- Dizer que você prefere os alpes suiços aos alpes franceses
2- Pedir ketchup em restaurante chique e colocar em cima da carne, aos olhos do garçom
3- Falar que os americanos fabricam champagnes deliciosos (para se chamar champagne, so pode ser fabricado na França)
4- Perguntar se francês toma banho todos os dias
5- Dizer que greve é um ato de rebelião desnecessario
6- Corrigir o inglês deles, principalmente quando eles pronunciam errado as palavras que começam com H (house se pronuncia rauze, mas francês fala auze)
7- Falar que francês trabalha pouco (são apenas 35h/semanais)
8- Afirmar que a gastrônomia francesa é otima, mas não como a inglesa
9- Criticar a cabeçada que o Zidane deu no Materazzi na final da Copa do Mundo de 2006
10- Dizer que os carros alemães (ou qualquer outra coisa alemã) são melhores que os franceses

Mais alguma maneira de cutucar as onças francesas com vara curta?

segunda-feira, 29 de março de 2010

Vélo'v

Morar longe de casa é como andar todos os dias de montanha-russa, os sentimentos ficam bagunçados. Tem dias que da vontade de jogar tudo para o alto e voltar correndo. Em outros, a ideia de cruzar definitivamente o oceano parece suicidio. Uma confusão so. Quando penso em arrumar as malas, lembro como a vida aqui é mais tranquila e vou ficando.

Não estou falando so de saude e educação gratuitas, de segurança, nem da vida cultural agitada que Lyon oferece. Falo de pequenas coisas, que no dia a dia facilitam muito a vida da gente. Por exemplo, as Vélo'vs, bicicletas que transportam os franceses de um lado para o outro. O nome é uma mistura de bicicleta em francês (vélo) com amor em inglês (love) e o resultado não poderia ser melhor: redução do numero de automoveis, indices menores de poluição e até melhoria na saude da população.

Lyon trouxe a idéia super bacana para a França. São quatro mil bicicletas à disposição daqueles que, como eu, precisam usar o transporte publico para se locomover. Pois é, assim como ônibus e metrô, a vélo'v é um transporte publico. Eu uso, tu usas, ele usa, nos usamos, vos usais, eles usam.

Existem mais de 340 pontos como o da foto acima espalhados pela cidade. Para usar uma das bicicletas, basta fazer uma carteirinha e deixar um "cheque-calção" de 150€, que sera descontado apenas se as bicicletas não forem devolvidas. A primeira hora é gratis, depois disso o condutor paga pelo uso. Mas quando eu e o Léo pegamos as bicicletas para passear nos finais de semana, usamos um truque para não gastar um centavo: trocamos as bicicletas em alguma estação antes de completar a primeira hora. Assim, podemos andar mais 1h antes de fazer uma nova troca. Eh também o que faz a maioria da população, que esvazia os pontos de retirada nos horarios de pico. Eh muito comum ver um cara engravatado com sua pasta na cestinha da bicicleta indo trabalhar às 8h da manhã. Os turistas não precisam fazer a carteirinha e podem retirar as bicicletas se tiverem um cartão de crédito internacional. Parece complicado, mas é super simples.

O esquema é levado tão a sério que todas as avenidas movimentadas da cidade possuem faixas exclusivas para as bicicletas. Existem até codigos de conduta e leis que deixam a pratica mais segura: Não é permitido carregar outra pessoa nem falar ao telefone com a bicicleta em movimento, é proibido ultrapassar pela direita ou andar em sentido contrario aos carros, não pode andar sob as linhas do tramway (um outro tipo de transporte publico europeu). Eh proibido conduzir com uma taxa de alcool igual ou superior a 0,5 gramas por litro de sangue e aquele que não respeitar as placas de sinalização ou farois, pode ser multado.

Não pense que a ideia deu certo por aqui so porque europeu tem consciência de que as bicicletas são bens que pertencem à população, isso também. Mas os 150€ debitados da conta de quem não as devolve, ajuda a inibir o vandalismo e os furtos. Pudera eu andar pelas ruas de São Paulo em cima de uma bicicleta do governo, sem medo de freiar em cada esquina. Sera que um dia eu consigo tirar a mesma foto com o rio Tietê ao fundo?


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Roupas de segunda mão

Nem a crise conseguiu pôr fim aos desejos consumistas das francesas, que vale lembrar, são enormes. So que as mulheres daqui deram um jeito de continuar renovando o guarda-roupas sem gastar muito e eu, sem gastar quase nada. A ideia de usar roupas de "segunda mão" é super bem aceita na Europa. No Brasil a onda ainda não pegou, apesar do sucesso dos brechos on line - uma pena. A preocupação não esta so na economia da graninha nossa de cada dia, mas também com o meio hambiente, e quando o assunto é esse precisamos aprender um pouco mais com os europeus.

O conceito se espalhou tanto que ja existem varias maneiras de reaproveitar a roupa suja alheia. Algumas grifes famosas estão abrindo suas second hand stores, onde o sujeito que adquiriu peças de coleções passadas pode se desfazer delas, revendendo-as para a propria loja. Claro que as roupas precisam estar em bom estado, elas serão lavadas e colocadas novamente à venda. Uma otima oportunidade para adquirir peças caras com precinhos camaradas. Não estou falando dos outlets, onde as roupas, apesar de mais baratas, são sempre novas. Falo de roupas usadas mesmo, que a principio me pareceu estranho mas se tornou super pratico quando meu lado consumista passou a ser financiado em euro. No Brasil, onde tudo precisa de nome chique para ser bem aceito, a lista de peças vintage que as madames procuram nos brechos é enorme: bolsas, sapatos, acessorios, oculos, chapéus... Por aqui o conceito vai além, tudo pode ser reaproveitado e grana curta não é mais desculpa para usar sempre o mesmo jeans ou o mesmo casaco.

Uma outra vertente do consumismo responsavel são os "mercados de pulgas", aqueles espaços enormes onde é possivel encontrar todo tipo de coisa que se possa imaginar: de parafuso à fralda de bebê, de ralador de queijos a quadros, de almofadas à meias (tudo usado, claro). Uma amiga de Lyon encontrou aquele treco de tirar caroço de azeitona e levou na hora, toda contente.

Pois é, em Lyon existem mercados de pulgas e brechos bacanas. Essa semana estive em um que reune no mesmo lugar roupas, moveis, objetos de decoração, livros, brinquedos e todo tipo de quinquilharia que se não serve mais para um, vai parar na casa do outro. Confesso que não é tão facil encontrar peças interessantes, mas vale a pena garimpar. Uma outra amiga encontrou um blazer por 2€, minha mãe (de férias em Lyon) comprou um quadro belissimo por 8€ e eu levei um jogo de taças de cristal por 15€ (deve valer uns 200€) e um bule antigo para cha (que uso para colocar flores) por 3€.




Esse brecho é organizado por uma associação que ajuda uma porção de gente carente de Lyon: mendigos, desempregados, idosos, familias sem teto. São varias ações reunidas para tentar reabilitar essas pessoas e inseri-las de volta ao convivio social. A associação recebe doações de roupas, moveis, utensilios domésticos e tudo mais que não te serve. Tudo mesmo! Encontrei até pote de vidro de geléia vazio para ser vendido. Todo o dinheiro recolhido no brecho é empregado em outras ações como nas 220.000 refeições servidas todos os anos à quem não tem o que comer.

Aqui esta o site da Associação "Foyer Notre-Dame des Sans-Abri" e aqui a lista de endereços dos brechos em Lyon. Se onde você mora existem outlets ou brechos bacanas, devem haver também instituições como esta precisando de você. Balancear consumismo e solidariedade faz um bem danado, falo por experiência propria.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os banheiros

Uma coisa que bagunçou um pouco as minhas idéias quando cheguei na França foi essa mania que europeu tem de não jogar lixo no lixo, pelo menos no banheiro. Mas agora não imagino falta de higiene maior do que o trato que nós brasileiros damos ao nosso papel com cocô. Coisa mais estúpida limpar a bunda e jogar o papel no lixo né? Aquilo fica dias por ali. Fedendo, contaminando... eca eca! Joga na privada e pronto, foi-se embora!

Aliás, o banheiro na França contradiz um pouco a fama de fedidos que eles tem. Os espertinhos usam um sistema infalível de organização para o toilette. Um lugarzinho só para a privada e outro para o chuveiro e a pia, cada macaco no seu galho. O único problema é que não dá para eliminar a feijoada e disfarçar o cheiro com o vapor do banho. Fora isso, é uma ótima idéia. Estranhei no começo, mas quando fui visitar minha mãe no Brasil estava tão desacostumada a fazer tudo no mesmo lugar, que saia do banheiro procurando a pia para lavar as mãos e cadê?

O que eu realmente não gosto por aqui são as cortinas de banho no lugar dos boxes de vidro. Parece casa de vó, antiiiiigo. E o pior é que todo mundo usa e ainda acha bonito! Tá, concordo que pode dar um charme ou até divertir o ambiente, mas elas não são nada práticas e me cansa ter que ficar trocando de tempos em tempos para não feder. Tirando a minha avó, nunca vi no Brasil quem preferisse as cortinas aos boxes. Sem falar que ter chuveiro na França é super raro. Eles usam uma torneira com uma espécie de cabo que da uma trabalheira enorme para segurar durante o banho. Junte isso às cortinas que vira lambança na certa. O Léo fez uma gambiarra para pendurar a nossa na parede, imitando os chuveiros do Brasil.

Para compensar, existem banheiras na maioria das casas, se é que você gosta delas. Encontrar um apto com box e chão no lugar das banheiras é tarefa dificílima! Quase tão difícil quanto se equilibrar dentro delas para tomar banho. O pior é que eu e o Léo quase nunca enchemos a nossa... É aquela velha história de não ter piscina e querer nadar todo dia na casa do vizinho.

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